28 setembro 2006

Salva de palmas...

Vinha a pensar escrever sobre outra coisa, que vou guardar para amanhã, mas depois de duas horas enfiado num avião tenho de explanar a minha prosa noutra direcção.
Não tanto porque este desabafo electrónico saiba bem mas, sobretudo, porque pretendo levantar a moral às hordas de compatriotas que se sentem pertencer a uma nação construída por heróis e habitada por estúpidos.
Cambada essa que tem por regra ficar muito ofendida quando, em viagem por países que eles consideram culturalmente mais elevados, encontra portugueses a atentar contra as regras da civilidade.
Boeing 737-800
Entalado entre um pacato senhor de idade e uma simpática senhora com uma cintura (e não só) bastante avantajada, viajei à frente de uma família, cuja mãe passou quarenta por cento dos últimos dez anos grávida, e atrás de um bando de nove senhores numa faixa etária que nos levaria a supor serem detentores de noções de bom comportamento.

Os risos das crianças loirinhas sentadas atrás de mim ecoou pelo avião, com as sensações provocadas pela aceleração e por sentirem o estômago descer até aos rins, aquando da descolagem.
A troca de sorrisos com os meus parceiros de fila foi comprometedora, a coisa começava bem.

Adormeci, para acordar por alturas do anúncio da fase de aproximação ao aeroporto de destino, com um safanão no meu assento provocado por uma das pestinhas da fila posterior. Nada de mais. A tripulação faz a recolha dos copos e outros resíduos da alimentação a bordo.

Ainda meio ensonado mas a despertar depressa, com a ajuda de um volume de ruídos crescente, apercebo-me das tropelias do grupo de machos holandeses, que distribuídos por duas filas à minha frente faziam voar entre eles pequenos objectos, que me pareceram bolinhas de papel, e vociferavam na língua mais arranhada e com a sonoridade mais agressiva que já fez vibrar os meus tímpanos.

As crianças desatam a chorar e a gritar, sabe-se lá porquê. Os encontrões no meu assento e nos dos meus vizinhos sucedem-se. E os tipos à minha frente prosseguem com comportamentos mais infantis que as crianças.
O nível sonoro aumenta. O som das gargantas a arranhar, como que a prepararem-se para escarrar a qualquer momento, que parece ser a base do neerlandês, do frísio ou seja lá do que for que eles estavam a falar, torna-se ainda mais desagradável quando dirigido às hospedeiras naquilo, que a julgar pelas expressões nas suas caras, seriam piropos inapropriados.

O avião começa a curvar, olho pela reduzida oval transparente na fuselagem e avisto (ou será que imagino?) as duas filas de luzes que sinalizam a pista onde nos preparamos para aterrar.
Bolas está quase!
Ajusto a ventilação para ter um pouco mais de ar, o meu grau de impaciência diminui.

A coisa aterra sem a subtileza a que estou habituado nas companhias aéreas portuguesas. O piloto atirou com o avião ao chão como se quisesse provar que as suspensões estavam a funcionar em boas condições.

A coisa acalma e, para findar esta última meia hora absurda, ouve-se bater palmas no grupo de senhores, que apresentavam problemas comportamentais de quem estará a entrar na andropausa.

Dizem que no reino da Beatriz as pessoas são civilizadas...
Se julgasse pela amostra de duzentas pessoas contidas em dois voos, de e para os Países Baixos, afirmaria o contrario, como os meus conterrâneos, que tendem a generalizar sobre o seu próprio povo pelas amostras que vêem, provavelmente, eles próprios.

Pequena nota final:

É ordinário ouvir-se uma grande salva de palmas a bordo dos aviões da Transportadora Aérea Portuguesa quando estes aterram em Lisboa... claro que isso é uma demonstração de alguma histeria colectiva, mas perfeitamente compreensível quando interiorizamos onde acabámos de aterrar.

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