Estava por aqui a degustar uns pequenos quadrados de um chocolate preto, enquanto martelava nas teclas a tentar juntar letras de modo a que fizessem algum sentido, quando me lembrei de uma notícia que li hoje. Esta dava conta de que um qualquer certame de moda, em Madrid, proibiu a participação de manequins demasiado magras, seja lá o que isso for.
Ora como tudo é relativo, o normal deles, ou até mesmo o cheiinho, já pode ser extremamente magro para quem tenha padrões de beleza decentes.
Reparei ainda que nestes últimos dois dias, não percebi ainda muito bem porquê, apareceram-me aqui e ali, algumas mensagens subliminares sobre este assunto.
Citações de blogues alheios no meu correio electrónico, notícias de jornal... espero que não me estejam a tentar dizer alguma coisa, é que nem sequer vou querer entender..
Não me meto nestes assuntos a não ser para provar a sobremesa como corolário de uma bela refeição.
Letras, palavras, frases... notas.
Um amigo perguntou-me se as notas não continuam soltas, porque na realidade as palavras são livres e a sua existência perde-se no tempo passado e futuro, não dependendo de nós.
Talvez seja verdade, talvez as palavras sejam livres mas a sua associação em ideias e notas está longe de o ser.
Regras sintácticas e gramaticais regem a linguagem de uma forma autoritária.
Os poucos corajosos dissidentes, que conseguem fugir à complexa estrutura linguística ou ganham prémios Nobel da literatura, ou apanham com ressonantes "Não Satisfaz" nas redacções. Os outros espíritos menos iluminados terão de cumprir as regrinhas todas se pretenderem comunicar.
Além disso o contexto é sempre indissociável. Quaisquer que sejam as palavras, estas só transmitirão correctamente a mensagem se o contexto for conhecido. Sobre este aspecto, deixem-me relembrar que a língua portuguesa, em particular, tem tendência a ser bastante traiçoeira. E em público também não se costuma fazer rogada para pregar uma rasteira!
Na minha humilde opinião nem as palavras são livres, coitadas. Estão dependentes de quem as conhece para sobreviverem e, como em tudo neste mundo, é a lei da selva que se impõe.
Neste caso não sobrevivem as mais fortes mas as mais simples! Sobrevivem as mais magras! As que conseguem aparecer mais vezes na passerelle das tecnologias modernas! As que cabem nos cento e tal caracteres permitidos pelo Serviço de Mensagens Curtas e se conseguem escrever com o polegar, usando dez teclas numéricas. E mesmo as palavras mais simples se tornam anorécticas ou bulímicas e ficam reduzidas a letras, tornando-se ainda mais reféns do contexto.
Por estas e outras temos uma língua ainda viva e novas palavras surgirão, associadas a novos contextos e a novas regras.
Camões teria hoje muitas palavras originais para o ajudar a criar epopeias.
Sempre que, por estar menos inspirado ou por ser meio zarolho, não conseguisse meter a palavra "bastante" na sua perfeita métrica decimal, onde provavelmente a palavra “muito” também não caberia e seria mais difícil de rimar, poderia sempre utilizar a palavra "bué" que é mais curtinha e rima na perfeição com "pois é".
19 setembro 2006
Chocolate...
Nota presa por Yosemite Sam às 23:39
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