O tempo passa a correr.
Deste ano, em particular, só vejo paisagem desfocada a passar a uma velocidade estonteante.
Para conseguir que o meu cérebro processe, minimamente e sem gripar, tudo o que os meus cinco sentidos, na vertigem da saturação, absorveram nestes últimos meses, tenho recorrido a auxiliares de memória...
Auxiliares de memória, é o nome pomposo que um professor meu utilizava para cábulas.
Se antes usava ficheiros de texto, agora virei-me para o software especializado que funciona até no meu telemóvel, mantendo as minhas notas acessíveis em qualquer lado e permitindo pesquisas detalhadas.
Mas claro que continuo a usar um bloco de notas... todo escrevinhado, numa caligrafia muitas vezes ilegível e ao qual falta uma ferramenta de pesquisa.
Tenho uma desorganização inata, que se reflecte nas minhas notas, e que dificulta encontrar seja o que for que tenha escrito. Como sei disso às vezes não escrevo... e esqueço-me... outras escrevo e não encontro... por isso esqueço-me na mesma.
Mas agora é impossível esquecer! Se durante as últimas décadas foi porque as memórias de silício dopado se insinuaram nas nossas vidas, tão discretamente que nos habituámos a depender delas, agora é a rede que se torna na nuvem onde tudo se perde mas nada se esquece.
As minhas notas guardadas algures, em servidores espalhados pelo mundo, provavelmente replicadas em cópias de segurança efectuadas diária e automaticamente, correm o risco de existir até ao fim dos tempos, em zeros e uns no ciberespaço... mesmo que ninguém alguma vez as leia e mesmo que eu me esqueça de que elas existem.
E se isto se passa com as minhas notas... que serão porventura irrelevantes, imaginem o que acontece com tudo o que mandamos para essa nuvem que cresce desmesuradamente, alimentada por essas partículas de informação.
Fotografias das férias, vídeos dos miúdos, correspondência... e tantas outras coisas... ficheiros e ficheiros.
As nossas vidas estão cada vez mais ligadas e por isso cada vez menos anónimas, ou menos privadas... é a ubiquidade, estamos em todo o lado ao mesmo tempo... e todos nos vêem.
Há quem não tenha pudor e não se importe com isso... quem abrace a nuvem e acelere pelo nevoeiro sem luzes ou sirenes.
Eu trepo na térmica que é a Internet até à nuvem que ela criou e ameaça sobre desenvolver-se(1).. mas fico sempre com algum receio... afinal quem controla as nuvens?
O clima até está cada vez mais estranho com esta coisa do aquecimento global... E previsões meteorológicas têm sempre um grau de incerteza.
Não era sobre nada disto que eu queria escrever... mas agora também já não me lembro exactamente qual devia ser o tema... tenho de rever as minhas notas...
(1) Nota voadora: as nuvens mais comuns são os cumulus humilis, os pompons que pululam por aí. Estes formam-se por correntes de ar ascendente, térmicas. Ar que ao subir arrefece até condensar a humidade que possui, formando a nuvem. Se o gradiente de temperatura permitir este ar mais quente continuará a subir e a gerar uma nuvem maior... cumulus congestus... e maior... cumulus nimbus... até se desfazer tudo em trovoada, raios, coriscos e uma chuvada.
20 outubro 2011
Nuvens
Nota presa por Yosemite Sam às 00:48 1 anotações
21 janeiro 2011
Não entendi...
No final de 2010 descobri um outro português, do qual ainda só tinha ouvido rumores. Estou a referir-me à língua portuguesa. Fui a São Paulo, foi a primeira vez que estive no Brasil. Nenhuma telenovela me preparou para o choque, nem alguém oriundo daquelas paragens, dos milhares que estão em Portugal.
O português é uma língua complicada. Uma fonética fechada e sibilante. Uma gramática tramada, mesmo para os nativos. Além de que temos fama de falar depressa. Se consigo entender que para um francês, alemão, britânico ou americano o português soe a russo ou árabe, não esperava passar por hispânico no Brasil ou por outra nacionalidade que não portuguesa.
Não me lembro das suas palavras exactas, mas um amigo de origem brasileira, radicado em Portugal há já vários anos, disse-me uma vez algo assim:
“Os portugueses olham para a língua como um elemento cultural, como património. Respeitam essa herança dos antepassados como poucos no mundo. Não percebem que para um brasileiro é apenas uma ferramenta para comunicar. Se eu me fizer entender que mal tem eu errar a gramática ou a ortografia. O objectivo primário de uma língua é passar uma mensagem."
Na altura retorqui que considerar uma língua como uma ferramenta não era incompatível com uma utilização correcta. Aliás, até permite clarificar a mensagem.
Ao que ele contrapôs:
“Sim, é certo, mas é complicado, porque é preciso instruir. No Brasil, infelizmente a taxa de alfabetização é baixa e já foi menor. Quem expandiu o português no Brasil foram os escravos levados de Árica. Muitas das palavras novas foram até criadas na clandestinidade, como código.”
Compreendo. Disse eu. E faz sentido. Mas…
O certo é que os meus tímpanos vibram e o meu cérebro tem dificuldade em processar. Até com os meus compatriotas tenho tendência a ser crítico com o uso da língua, porque faz parte do português que sou. Prezo a correcção na utilização desta “ferramenta”, deste pedaço de cultura.
A ler já convivo, com um pouco mais de indiferença, com o acordo ortográfico, afinal não há alterações significativas e embora por vezes tenha de reler uma frase porque uma palavra qualquer me baralhou com a grafia, sobrevivo. A escrever, ignoro. Felizmente o corrector ortográfico que utilizo ainda sabe onde colocar cês e pês antes de tês.
Mas pontapés na gramática…Ghrrr! Não aceito! Isso é ofender!
Tenho dificuldade em tolerar! E se tolero é porque não posso educar quase 200 milhões de pessoas … até porque o me apetecia fazê-lo à chapada!
A mais flagrante e simples: concordância de número. Para um brasileiro parece ser difícil usar as palavras no plural. Falam: “muitos caminhão e muitos carro na estrada”; “dois grupo de pessoas”. Fico até na dúvida que eles conheçam o plural de algumas palavras como capitão, pincel ou até… lápis.
E a conjugação verbal? Usam o gerúndio, a primeira e terceira pessoas do presente do indicativo e resto viajava nalguma nau que se afundou algures no Atlântico Sul.
“Tu vai comigo?
– Tou indo!
– Vamo bora!”
Não expando este pequeno diálogo. Deixar isto escrito até pode ser perigoso. Os meus dedos queimam e as minhas bochechas fervem, devo estar a corar, não sei se de vergonha ou raiva. Acho que chega para ilustrar a ideia.
No meio de tudo isto, o que mais me doeu na alma foi não me entenderem!
A resposta sistemática era: “Não entendji.”(1)
Tão ou mais comum que a interjeição: “Oi?”
Juro que falava devagar! Tive de me esforçar para falar, como eles…
Parece que o ouvido deles é limitado ou simplesmente não está afinado para o que eles dizem ser o português com sotaque. (Com sotaque!!! EU? Nem a minha costela alentejana se nota, muito menos a beirã. Indignação!).
Não sei se é por termos tantas novelas que para nós é igual. Não deve ser, eu até nem vejo. E tive mais dificuldade em perceber os “tiques” (para não dizer um palavrão) gramaticais do que o sotaque.
Se temos orgulho do português ser a quarta língua mais falada do mundo, porque a semeamos aos quatro ventos, temos de ter consciência de que lhe perdemos o controlo.
O sotaque mais falado é mesmo o brasileiro. Dez milhões à escala brasileira… falamos um dialecto, só espero que não esteja em vias de extinção.
O acordo ortográfico é um primeiro passo para que essa ferramenta se torne comum, aproximando também os outros países de língua oficial portuguesa… mais uns milhões. A grafia já está... faltará abandonar o sotaque... mas espero que nunca se lembrem de abdicar da gramática ou sequer simplifica-la, afinal sem ela uma língua não é nada.
Nota presa por Yosemite Sam às 00:02 0 anotações
20 janeiro 2011
Nova década
Como devem ter reparado... provavelmente não... 2010 foi um ano seco por estas bandas.
A década termina os anos zero já foram arrancam agora os anos 10.
Talvez uma nova vida para estas notas.
Tenho algum material que tenho mantido em rascunhos... várias ideias que ainda não concretizei em textos que me satisfizessem, afinal também sou egoísta e escrevinho estas notas sobretudo para mim, para tentar manter o meu "tuguês" em melhor forma que a minha barriga.
Talvez tenha ficado mais picuinhas... mas o mais certo é o meu fraco talento ter minguado.
Peço por isso um pouco de paciência a quem se arriscar a ler estas notas.
E vamos lá ver por quanto tempo consigo manter isto. Não prometo nada, talvez uma por semana para começar.
Nota presa por Yosemite Sam às 23:44 0 anotações
25 março 2009
Picante
As papilas gustativas só distinguem o doce, o amargo, o salgado e... o picante.
Sem olfacto os detalhes de todos os outros sabores são ignorados.
Acho que já para aqui dissertei sobre o assunto... já não anoto há tanto tempo que não tenho a certeza e não me apetece ir rebuscar os arquivos.
Mas esta nota vai num sentido diferente, para lá da complicada anatomia da língua.
Com o nariz entupido por uma constipação que anunciou uma Primavera prematura, a única possibilidade de desfrutar uma refeição passou por recorrer ao abuso do sal e do picante. Algo que já é habitual mas nestas ocasiões a justificação é válida.
Com a língua a arder a tensão arterial demasiado elevada, deu-me para pensar... o que é sempre perigoso.
Fiquei a pensar se a gastronomia indiana não terá sido inventada por um povo desprovido de olfacto. Encharcam a comida em picante para exercitar o paladar.
Não quero aqui a atacar as susceptibilidades de ninguém, mas afinal isso pode justificar o facto de eles deixarem andar as vacas à solta.
Dizem que os odores nas ruas nem sempre são agradáveis, um facto que tenho de verificar, um dia, in loco.
Uma outra teoria, diria antagónica, é que eles usam o picante para entorpecer os outros sentidos, em particular o olfacto... e daí suportarem as vacas...
Não o fizeram com o sal porque este é um bem de luxo e provoca hipertensão. A malagueta cresce como erva daninha e até pode ser terapêutica.
O certo é que um restaurante indiano é daqueles que compensam sempre quando o nosso nariz está entupido, não ficamos com remorsos de pedir um prato exótico e não o poder saborear.
Claro que estas teorias levantam outras questões relevantes como:
Porque será que o México abusa do picante?
Bem, para aquelas bandas também havia índios...
O picante e o sal dão para longos devaneios... e sabem tão bem.
Também gosto do açúcar... para a sobremesa.
Nota presa por Yosemite Sam às 23:30 0 anotações
05 março 2009
Inspiração... um bem escasso
Alegar que o contacto demasiado com estas novas tecnologias está a acabar com o que resta da minha sanidade.
Sanidade física porque estou mais gordo, mais pitosga e com lombalgias; mental porque... bem essa tem sempre tendência piorar, mas o meu cérebro precisa de respirar.
Mas todos esses pretextos serviriam apenas para vos iludir.
A principal razão, que originou este brutal interregno de anotações, é apenas uma gritante falta de inspiração...
O recomeço será difícil. Tenho dois ou três temas para outras tantas notas.
Peço-vos um pouco mais de paciência, enquanto espero pelos brevíssimos rasgos, de uma qualquer espécie inspiração, que me permitirão alinhar a prosa.
Nota presa por Yosemite Sam às 22:48 0 anotações
02 janeiro 2008
Lusco-fusco
Há um momento em que a noite deixa de ser noite.
Deixa de ser noite mas ainda não é dia.
É aquele instante em que as cores acordam.
Acordam, sonolentas, ainda sem a energia que o sol lhes transmite.
Esse momento é mágico!
É um interregno entre o escuro e o claro.
Uma trégua na eterna luta entre a luz e a sombra.
Serão momentos como este que inspiram os grandes artistas.
Que inspiram contos fantásticos, pinturas subtis, poemas à criação...
O perpétuo movimento da terra oferece outro momento mágico:
o lusco-fusco depois do sol fugir para lá do horizonte.
O pôr-do-sol estará sobrevalorizado... e é muito visto.
E os instantes seguintes, na transição entre os laranjas e os violetas, estão documentados detalhadamente, com todas as cores e palavras.
Um dia, ainda embrião, que nasce de uma Lua cheia, prenha de luz, está
prestes a iluminar o mundo e parece que ninguém repara...
E se ninguém nota... anoto eu.
Nota presa por Yosemite Sam às 22:22 0 anotações
03 outubro 2007
Grafia...
Num outro dia, sem que nada o fizesse prever, fiz uma descoberta relevante.
Uma descoberta com uma conotação negativa mas, ao tornar-me consciente dessa realidade talvez possa procurar uma cura...
Então eu confesso, descobri que estou dependente de um corrector ortográfico.
Eu sei, é triste...
Ainda procurei umas desculpas, que não sendo totalmente esfarrapadas, nem totalmente
desprovidas de senso, não justificam em pleno o estado letárgico da minha ortografia.
Entre essas desculpas incompletas há uma que será, talvez, mais válida. Afinal eu sempre dei uma pilha de erros nos ditados, exasperando a minha professora primária. Comia letras, sobretudo consoantes, como os énes que tornam as sílabas nasaladas ou érres e ésses quando se encontram duplicados.
Cresci convicto que possuo dislexia na escrita.
Mas o caso é mais grave e os erros que me levaram a esta nota de retratação são mais básicos que a actual instrução primária.
Não são erros tipográficos em que se altera a ordem das letras na palavra ou em que se martelam letras vizinhas no teclado. Embora os teclados tenham uma certa tendência para se desviarem, sobretudo quando estou cansado.
Tenho dúvidas existenciais quando escrevo sem a rede, leia-se sem corrector.
Será já um princípio de Alzheimer?
Bom o problema está identificado.
Creio que a solução passa por continuar a escrever e sobretudo ler mais em português.
Ler noutras línguas não ajuda para a ortografia do português mas o tempo para a leitura é curto e, nestes últimos tempos, o topo da pilha inclui títulos em estrangeiro, com prioridades mais elevadas.
Não nos podemos esquecer que só conhecemos as palavras que ouvimos ou lemos.
Entretanto já lá vai mais de um ano que para aqui escrevo... assim sem mais nada.
Claro que há sempre umas notas que soam melhor que outras. O exercício da escrita não é linear.
Gostava de discorrer sobre outros temas ou com outros estilos mas nem sempre encontro
as palavras que quero, ou as que encontro não são suficientes para elevar um tema banal e considerar prendê-lo por aqui.
Claro que estou a elevar a fasquia e claro que tornando-me mais exigente diminuo (ainda mais) a
frequência das anotações e acumulo rascunhos incompletos. Uma situação a rever.
Nota cultural:
Tudo isto me fez lembrar uma citação de Stephen King:
"If you don't have the time to read, you don't have the time or the tools to write."
Que uma tradução livre revela, em português:
"Se não tens tempo para ler, não tens tempo nem as ferramentas para escrever."
Nota presa por Yosemite Sam às 23:43 0 anotações
11 setembro 2007
Na rua...
É dia de semana.
Sim deve ser, o sol está quase caído e o comércio ainda está aberto.
O ar está luminoso, límpido depois da trovoada.
Nuvens negras desagregam-se e afastam-se para mostrar um céu com reflexos laranja.
Está frio e a arrefecer.
Água escorre, suja, para as sarjetas.
Deve ser Outono, um lago negro, numa esquina, denuncia falta de manutenção do sistema de escoamento.
Típico! Durante o Verão, de um ano que deve ter sido de seca, ninguém se preocupa com esses detalhes.
O semáforo está verde, automóveis viram à direita.
Agitam as águas e molham os pés dos transeuntes que tentam, sem sucesso, evitar os salpicos.
Gente nas ruas desloca-se sem destino aparente.
Para lá, para cá.
Alguns param para olhar as montras, não entram, a vida deve estar complicada.
Uns param na passadeira, onde aguardam o sinal para poderem atravessar.
Numa paragem de autocarro o banco está preenchido por duas senhoras de idade, outros estão de pé, à espera, com sinais de maior impaciência.
O pregão da cigana a vender chapéus-de-chuva eleva-se, embora ininteligível, sobre o ruído das viaturas que circulam na rua e dos saltos que marcham nos passeios.
É ignorado. A chuva foi fugaz.
Reconsiderando, talvez seja a Primavera.
Não se vê vendedor de castanhas, nem se lhes sente o cheiro.
Ou esta não será Lisboa.
As árvores que se vêem, no alto da colina, são pinheiros mansos... folha perene, inconclusivos.
A passarada fugiu da chuvada.
Mas que interessa? As migrações andam destrambelhadas.
Sabe-se lá a quantas se anda.
Afinal os dias correm iguais, uns seguem-se aos outros, juntam-se em meses e estações.
Iguais, repetitivos, sem história.
Tempos estranhos.
Mergulhado nestes pensamentos amesquinhados, o homem caminha pela rua à procura de uma morada, anotada à mão, no verso de um panfleto publicitário.
Pára no quiosque para pedir direcções.
Desconfiando da sorte que o trouxe ali, desdenha o sorriso que o acolhe, ouve o que quer e segue em frente... para ser mais um entre muitos.
Nota presa por Yosemite Sam às 00:06 0 anotações
05 setembro 2007
Bragas...
Não haja dúvida que o Português é uma língua traiçoeira.
Por vezes é mesmo ilógica.
Este Verão deparei-me com um exemplo sintomático da perfídia língua lusa.
A construção das palavras portuguesas costuma ser razoavelmente linear e a utilização de prefixos e sufixos costuma ser bastante intuitiva.
Sub e sobre, por exemplo, são proposições comummente utilizadas como prefixos e os adjectivos por elas modificados adquirem um significado relativo, ou comparativo, de fácil compreensão.
Sufixos comuns são aqueles utilizados para a criação de diminutivos ou aumentativos (como “-inho”, “-ito”, “-ão”, etc.).
A uma “coisa” que é grande aplica-se um “-ão”, ou no feminino um “-ona”, resultando uma “coizona”.
A uma pequena um “-inho”, resultando uma coisinha (no feminino, obviamente). A coisa original fica automaticamente classificada, em termos de grandeza, entre a “coizona” e a “coisinha”.
Estas regras básicas estão automatizadas e são fáceis de explicar a quem está a fazer as primeiras incursões na aprendizagem do português.
O problema é a existência de algumas variações... vulgo excepções.
Considere-se o seguinte trio de palavras:
calças; calções; calcinhas.
A ordenação, crescente ou decrescente, destas peças de vestuário não pode ser considerada lógica quando se aplica a regra natural do português.
Neste caso é possível retirar conclusões sexistas da etimologia.
Calça é uma palavra feminina para uma peça do guarda-roupa tipicamente masculino que se imiscuiu com sucesso nos roupeiros femininos... mesmo daqueles que albergam burqas.
Calção é uma palavra masculina para uma peça que (ainda) é maioritariamente utilizada pelo universo masculino. O seu plural, calções, denota alguma virilidade e assume semelhanças com uma outra palavra, bem portuguesa, intimamente ligada ao homem.
“Calçona” é que será, talvez, o aumentativo correcto para calça mas não vale a pena complicar mais.
Não há dúvida que a roupa é encarada de forma distinta pelos sexos.
E sempre se revestiu de significados sociais impostos por estereótipos antigos.
Talvez isso justifique a discrepância linguística.
Será que os tempos caminham para uma uniformização, na verdadeira acepção da palavra?
Repare-se na proliferação inusitada desses símbolos da masculinidade que os calões representam.
Parece estar cada vez mais difundida a moda de as senhoras andarem por aí a mostrar as pernas sem o recurso à obsoleta mini-saia.
Tenho pena... perde-se aquela ondulação de tecido e a esperança, de que a corrente de ar revele um pouco mais, desvanece-se.
Acreditando na possibilidade da reciprocidade estatística, imagine-se a quantidade de machos que usam calcinhas.
Desta situação retiro a seguinte conclusão:
Está mais difícil saber quem usa as bragas.
Nota de rodapé:
Há incidentes linguísticos que não se explicam.
O facto de vestirmos calças para cobrir as pernas e calçarmos sapatos para proteger os pés é um deles.
Nota presa por Yosemite Sam às 00:15 0 anotações
08 julho 2007
Espaço...
O saber não ocupa lugar, lá diz o ditado, mas a mim não me enganam com essa.
No outro dia fui à feira do livro de Lisboa, já não passava pelo Parque Eduardo VII(1) havia muito tempo (claro que aqueles que possuem mentes perversas deverão abster-se de comentar).
Eu tenho um problema com aquela feira e com outras similares, por isso só lá posso ir uma vez de vez em quando, por períodos limitados, com escolta e antes de jantar.
Desta vez arrisquei, mesmo sabendo que não posso ficar exposto a tamanha catrefada de livros, sob pena de ter de meter os meus parcos haveres no prego só para poder levar para casa várias toneladas de papel impresso.
As minhas últimas passagens por este acontecimento cultural, levaram-me a aperfeiçoar o percurso da visita. Estaciono junto da Estufa Fria, desço por um lado em zig-zags aleatórios e subo pelo outro em zag-zigs erráticos. Garanto, assim, uma cobertura razoável das quatro fileiras de bancas. Este percurso não dispensa uma paragem, obrigatória, na barraquinha das farturas e churros, para retemperar as forças e enganar a fome. Algodão doce também serve, mas este ano só havia do cor-de-rosa. Outra opção é a bela maçã caramelizada, mas desta vez não as vi.
Estou a fugir ao assunto. Isto é o que dá, ter muitas ideias prontas a jorrar cá para fora, atropelam-se umas às outras. Já avisei que não é defeito é feitio e acrescento que a primeira pessoa que me tentou corrigir foi a minha professora primária, sem sucesso como se pode verificar.
Onde é que eu ia?... Ah! É verdade... no peso da cultura.
Ora é típico. Abro as portas do carro e despejo lá para dentro os catorze ou quinze sacos que por esta altura me parecem pesar perto de trinta e seis quilos cada. Sento-me e as minhas pernas e braços agradecem os minutos de repouso. Afinal aquele parque tem quinhentos metros de comprido, uma ida e uma volta aos zig-zags mói.
Uma das primeiras conclusões que retiro das minhas visitas a estes certames, ou às minhas investidas esporádicas a uma livraria ou biblioteca, é que o conhecimento ocupa espaço! E pesa! Sobretudo depois de acarretar uns quilos pela alameda acima.
Portanto refuto o provérbio!
E isto é tão verdade no papel como no mundo digital. Mesmo com a miniaturização, que fez progressos notáveis(2)! Querem guardar mais informação, arranje-se mais um disco rígido que este já está cheio, querem mais documentos, mais fotografias, mais músicas, venham mais memórias, cartões, discos compactos, discos versáteis digitais(3). Tenho uma pilha dessas coisas para meter na ordem e já não me cabem nas gavetas.
Produz-se informação a um ritmo alucinante. Para a guardar é preciso espaço!
Colocada a questão com estes preceitos, sou levado a concordar com um detective famoso que no final do século XIX ignorava por completo a teoria de Copérnico. Desconhecia mesmo que a Terra girava em torno do Sol.
O Doutor John H. Watson, ex-Oficial-Médico do Exército de Sua Majestade Britânica surpreendeu-se ao tomar conhecimento desta particularidade – elementar – do homem com quem dividia as despesas de um apartamento em Baker Street.
Para o intrépido detective essa informação era completamente desnecessária e ele tratava de a esquecer depressa para poder preencher o seu “sótão” com a mobília que lhe interessava, não o queria atafulhar com bugigangas(4).
Esta teoria parece razoável, afinal possuímos um número de neurónios limitado, as sinapses estão restringidas a um espaço exíguo.
A questão é mais delicada do que parece à partida.
Acabamos por não saber se uma informação nos vai dar jeito ou não no futuro.
Não temos forma de saber se teremos espaço para guardar outras peças sem despejar as que já temos.
Eu imagino a coisa como uma caixa de ferramentas e não considero que uma chave de fendas seja mais imprescindível que um martelo. Embora saiba, por experiência própria e porque aprendi com alguns mestres da arte do desenrasca, que uma chave de fendas pode servir de martelo e vice-versa.
Há que juntar o maior número de ferramentas possível. Devemos equipar-nos para enfrentar o mundo. Como a caixa talvez seja limitada, será necessário escolher as melhores peças, as mais precisas, as mais resistentes, as mais práticas e ergonómicas.
Anotações:
(1) Sabem qual o nome porque este parque era conhecido antes de 1902? E porque mudou de nome em 1902?
(2) A foto ao lado resume a questão, aliás já aqui notada anteriormente.
É de um disco de 5 MB, que equipava um computador IBM em 1956 e que pesava qualquer coisa como uma tonelada.
Hoje começamos a ter problemas para não perder nos bolsos as pequenas memórias portáteis de alguns GB.
(3) Vulgo DVD.
(4) Sabem quem é o detective? Claro que sabem! É elementar!
Esta constatação é feita logo no início da sua primeira aparição pública em um “Estudo em Vermelho” ou no original “A Study in Scarlet”.
Nota presa por Yosemite Sam às 23:45 0 anotações
18 junho 2007
Arrefecer...
Há uns tempos, diria que desde que me conheço, que ando intrigado com um assunto doméstico.
Vou direito ao assunto, sem engonhar, porque é mesmo uma questão existencial, diria até primordial, uma questão filosófica num planeta atormentado pelo aquecimento global.
Porque é que é se engoma a roupa? E quem terá sido a alminha iluminada que se lembrou disso pela primeira vez?
Ao que parece foram os chineses os primeiros a começar com esta actividade ignóbil.
A ideia era (e talvez ainda seja) alisar as sedas e os linhos, retirar as rugas aos tecidos.
O calor alivia a tensão entre as moléculas, permitindo o estiramento das fibras.
A água, ajuda a que esse alívio se verifique a temperaturas que não impliquem a destruição das urdiduras, sobretudo as de algodão.
A pressão distende os tecidos eliminando os vincos e outras rugas.
A goma, que felizmente caiu em desuso, permite que os tecidos sejam moldados tornando-os numa armadura.
Às temperaturas que normalmente se realiza esta operação (recomenda-se que varie progressivamente entre os 135º C, para os acrílicos, nylons e outras fibras sintéticas, e os 230º C para o linho), tem também propriedades higiénicas, eliminando parte daquela fauna e flora microscópica que pulula alegremente por aí.
A verdade é que as informações, apresentadas nos parágrafos anteriores, pertencem já aos domínios da cultura geral e senso comum. No entanto, quando se coloca objectivamente a pergunta: “- Para que serve passar a roupa a ferro?”, a resposta não é clara e está sempre sujeita às susceptibilidades de quem a responde.
Será uma questão de vaidade, uma questão de conforto visual.
Engomar é uma tarefa completamente supérflua!
O que é impressionante é que deverá ser, das tarefas que menos contribuem para o bem-estar da sociedade, aquela que mais contribui para a economia global e também aquela que mais contribui para o famigerado aquecimento global.
Contas rápidas...
- Um ferro de engomar doméstico, daqueles de trazer por casa, normalíssimos, que mandam umas bufas de vapor quando se carrega num botão, tem uma potência média de 1.000 Watt (nos dias que correm a maior parte dos fabricantes já oferece modelos mais potentes mas este número facilita as contas);
- Para passar a roupa de uma pessoa, gastar-se-á, em média, 1 hora por semana (não necessariamente da pessoa que veste a roupa) com o ferro ligado. Este número é uma mera estimativa com base em observações empíricas, embora se creia que esteja nivelado por baixo, não andará muito desfasado da realidade (a 5 minutos por peça teremos 12 peças por hora, um número de peças aceitável para uma média se não se fizer caso das extravagâncias);
- Considerando esta média aceitável para Portugal, multiplicando estes números pelos 10 milhões de habitantes deste país, chega-se à conclusão de que o são consumidos por ano 480 GW (sim Giga Watt! Mil milhões!), só para a roupa que se traz no pêlo.
Considere-se agora a vertente industrial, que se ocupa principalmente dos lençóis e toalhas das unidades hoteleiras e da restauração:
- A potência consumida em média por uma prensa ou ferro industrial ronda os 5.000 W;
- Considerando que estas máquinas são apenas utilizadas durante o horário de trabalho, ou seja, 8 horas por dia;
- Assumindo 240 dias úteis por ano, para facilitar as contas;
- Considere-se a existência de 1930 lavandarias e engomadorias em Portugal, número de entradas para estas duas actividades nas páginas amarelas portuguesas;
- Se cada uma destas entidades tiver 2 máquinas a funcionar obtém-se um consumo anual de cerca de 37 GW.
Contas feitas, só em Portugal é possível considerar que são consumidos mais de 500 GW por ano para passar a roupa a ferro.
As mesmas contas para a Europa: cerca de 25.000 GW gastos por ano a engomar.
Claro que todos os profissionais do ramo odiariam qualquer revolução, seria um grande rombo para a sua economia e para a economia das empresas fornecedoras de electricidade, mas a proposta fica aqui registada:
Por um planeta melhor parem de engomar!
Anotação final:
Todos temos de contribuir para um planeta mais limpo, todos temos de poupar para permitir que as gerações futuras ainda desfrutem um pouco desta pequena rocha que vagueia pelo universo. Deixo a minha sugestão, temos de começar por algum lado.
Nota presa por Yosemite Sam às 01:01 1 anotações
10 junho 2007
Mediterrâneo...
Nas quatro ou cinco tentativas que fiz para escrever esta nota não fui além de um chorrilho atabalhoado de palavras sem nexo.
Embora a minha insanidade seja incurável, sinto-me agora emotivamente mais frio para lidar com o mês de Maio.
Uma escrita emotiva tende a perder em objectividade.
Escrever com emoção, quero dizer, escrever emocionado, retira a lucidez necessária a uma análise clara e objectiva dos factos.
Talvez a prosa seja mais fluida, talvez a emoção funcione como catalisadora de figuras de estilo, mas nada acrescenta em realismo ou em conteúdo.
Mais problemático se torna, o encadeamento das palavras, quando as emoções são contraditórias, quando a felicidade se mistura com a tristeza e os olhos mareiam de alegria e mágoa.
Das corridas...
Terminada uma etapa é necessário olhar para a meta da etapa seguinte.
A vida é toda uma coisa ao jeito do ciclismo: metas volantes e prémios da montanha.
A estrada é longa e as suas características mudam à medida que se avança.
No meio do pelotão luta-se para chegar aos lugares da frente, disputam-se ao sprint as pontas finais.
Claro que há aqueles que pedalam por aí dopados, correndo a velocidades desumanas e atropelando os valores morais mais elementares.
Na vida não há fair play, é um salve-se quem puder constante.
A etapa que se segue terá outros objectivos e outras tácticas, neste caso terá até outro pelotão, outras equipas... e outros desafios.
Das terras...
As paisagens sucedem-se. Azuis, verdes, castanhos e todo o colorido das flores desta Primavera.
O preto riscado de branco, numa estrada a caminho do oeste.
Do mar para terra, da planície para a montanha, do chão para as nuvens!
Com novas paisagens, novos costumes.
Arquitecturas, gastronomias, línguas e outras coisas diferentes.
Outros olhares, outras interpretações.
E vemos outras maravilhas, outros recantos que fotografamos com a nossa memória... que o tempo distorce e gasta até se tornarem aguarelas esbatidas numa tela amarelecida.
Das gentes...
Sejam espectadores atentos ou parceiros na estrada, colegas de equipa, adversários ou árbitros, conhecemos novas caras à medida que os ponteiros do cronómetro giram.
Gentes... gentes que percorrem os seus caminhos, que se cruzam com os nossos.
Pessoas com quem partilhamos momentos. Instantes fugazes de uma vida a correr.
Gentes que sobrevivem ao primeiro impacto e aguentam tempo suficiente para aprenderem a suportar a nossa companhia.
Acabamos por vestir camisolas da mesma cor, mesmo que patrocinados por outras marcas.
Acarinhamos e somos acarinhados em grupos que nos acolhem, por um pelotão que pedala na mesma estrada e no mesmo sentido.
Sorrisos ou outras expressões faciais menos agradáveis denunciam estados de espírito que aprendemos a conhecer e a decifrar.
Uns guardamos como companheiros de estrada nas etapas seguintes, outros seguem por outros caminhos ou para outras provas.
Conhecer gente é uma riqueza maior.
Permitir que gente nos conheça é criar laços difíceis de quebrar.
Dos mares...
A saudade é um sentimento estranho... que se entranha segundo dizem alguns.
É como a água que verte pelas frinchas.
Ocupa os espaços vazios, escorrendo pelas fibras humanas.
É como a água, cíclica.
Evapora-se de um mar qualquer para gotejar dos nossos olhos.
E se não temos saudades de um mar temos de outro...
Ou talvez apenas de um lago.
Pequena grande anotação:
Esta nota, presa com comoção, junta apenas fragmentos de sentimentos e emoções.
Se é difícil para qualquer génio da literatura utilizar as palavras de maneira a incutir a sua afecção e sensibilidade, para mim é uma tarefa impossível.
Mas queria, ainda assim, dedicá-la... humildemente.
E dedico-a. Não como agradecimento, pois sei que não tenho de agradecer a ninguém.
Dedico-a para que o mundo saiba que há gente que aprecio.
Dedico-a porque essa gente teve paciência para cuidar de mim, mostrar-me outras coisas e outros saberes.
Com carinho...
Dedico-a às gentes do projecto Herschel-Planck, com quem foi um privilégio partilhar a estrada e o esforço.
E dedico-a às gentes lusas que trabalham numa pequena terra, cheia de glamour, na Côte d’Azur, para que continuem a saborear o presente... na agradável companhia uns dos outros...
Nota presa por Yosemite Sam às 23:00 1 anotações
25 maio 2007
Cinco sentidos...
Estou atrasado nestas notas.
Não tanto por falta de inspiração mas, sobretudo, por falta de espírito... e talvez de tempo.
Do espírito falarei mais tarde.
Nesta nota assentarei apenas alguns dos porquês da falta de tempo.
Este está a ser um mês emotivo.
Tenho explorado os cinco sentidos em pleno!
Viajei a um mundo que foge ao meu conceito de normalidade.
Vi, com os meus olhos, montanhas cruas que se erguem como dentes em gengivas de terra fértil.
Ouvi, com os meus ouvidos, pássaros chilreando cantigas que não conhecia.
Cheirei, com o meu nariz, aromas dos verdes vales polvilhados de flores que desabrocham na primavera e das encostas seguras por florestas de Pinus cembra.
Tacteei, com as minhas mãos, erva fresca e neve gelada, caruma caída e madeira a secar.
Saboreei alimentos conhecidos com outros temperos e com outros nomes.
E trepei! Subi ao cimo desse mundo!
Mais de muitos metros acima dos vales.
Vendo, com os meus olhos, o negrume das nuvens que encobriam os picos que marinhava.
Ensurdecendo, os meus ouvidos, com trovões que estoiravam imediatamente a seguir a relâmpagos que me encandeavam.
Tacteando, com os meus dedos, a pedra calcária, áspera e rugosa, sentindo o pedrisco e a chuva, frios, na minha face, e a humidade quente do suor, nas minhas costas.
Inspirando, com o meu nariz, o ar das montanhas e das pedras molhadas.
Saboreei a água fresca que escorria, caída da chuva e do degelo do granizo acima da minha cabeça.
E voei! Voei!
Explorando os cinco sentidos: para Norte, para Sul, para Este, para Oeste... e para cima!

Devo uma anotação para agradecer ao fotógrafo.
Devo-lhe um agradecimento pelas fotografias e pela organização da expedição às Dolomites no nordeste de Itália. Esta nota é para ele e para mais um companheiro de estrada e dos ares.
Nota presa por Yosemite Sam às 23:59 0 anotações
04 maio 2007
Saltos...
Já aqui falei de sorrisos, hoje falo de lágrimas.
Lágrimas escorrendo em torrente.
Lágrimas cujo sal se cola à pele enrugada de faces doridas.
Lágrimas limpas com mãos calejadas do trabalho árduo.
Lágrimas que se misturam com os suores frios que os pesadelos provocam.
Lágrimas por lembranças de uma vida passada em busca de uma vida melhor.
Fui tocado por um pequeno documentário sobre a emigração portuguesa, em direcção a França, durante a ditadura que assolou Portugal no século passado.
Relatos crus de gente que passou as fronteiras a Salto. Gente que andou e correu léguas, atravessando montanhas e rios, em direcção a um paraíso que nunca existiu.
Infortúnios e misérias, amalgamados nas almas enrijecidas pela fome e pela sede dos seus filhos, venceram medos e terrores. Com coragem fugiram de balas, pulando, com esperança, pelos montes para um futuro incerto.
Foram estrangeiros num país estrangeiro, estranhos numa terra estranha.
Privados de tudo, lutaram para erguer o queixo e levantar os olhos que nunca perderam o brilho.
E os que regressaram foram e são estrangeiros nas suas terras... não são de cá nem de lá.
Com os olhos húmidos, lhes rendo uma singela homenagem. A esses bravos homens e mulheres amassados por um regime abrasivo e explorados por uma economia em crescimento.
E relembro que hoje, como nesses tempos distantes, outras gentes se arriscam a saltar em condições desumanas, atravessando desertos e mares, para outras paragens em busca de apenas um pouco mais.
Nos últimos tempos, perdi alguma da pujança com que prendia estas notas.
Não sei ao certo porquê.
Falta de inspiração, sei lá.
Tem-me faltado ânimo, talvez.
Sei que muitas vezes me lembrei destas teclas, pensando para mim próprio como acomodaria as palavras para descrever uma ideia, um sentimento ou uma observação.
Têm-me faltado o verbo e o adjectivo para descrever as paisagens que as ideias desenham no meu espírito... e têm sido tantas!
Foi necessário beber um trago de nostalgia concentrada para que voltasse a pregar aqui uma nota.
E, com os pêlos eriçados e crispado pela amargura no tremor das vozes que relataram desventuras, voltei à carga... mais virão!
Notas culturais:
Para ver: "Gente do Salto - Memórias de Portugueses que fugiram para França nos anos 60" de José Vieira, editado em 2005.
Noutro contexto (ou talvez não) para ler: "Estranho Numa Terra Estranha" de Robert A. Heinlein, editado pela primeira vez em 1961. Um Livro classificado na prateleira da Ficção Científica mas com uma vertente de análise social que lhe permitiria figurar noutras áreas.
Nota presa por Yosemite Sam às 23:15 0 anotações
02 abril 2007
Terra...
No outro dia fui até à terra.
À terra que me viu crescer e onde já não ia há muito.
Estava diferente.
As pedras pareceram-me mais pequenas e as árvores menos familiares.
A água do rio é outra.
O rio não é o mesmo.
O casario de xisto abandonado resiste às intempéries.
Com as janelas e as portas escancaradas e as lajes dos telhados a fugirem do sítio, se a viga de castanheiro ainda não cedeu.
O caminho, agora ladeado de silvas, ortigas e outras plantas danadas ainda conduz à fonte.
Fonte onde ainda corre a mesma água, num fio de prata cristalino.
Água que tem o mesmo sabor fresco e leve dos tempos que já lá vão.
Leveza duma infância cada vez mais distante.
Mas a natureza é Mãe.
Mãe forte que faz e desfaz.
Que limpa e arranca pela raiz, renovando.
Passou a cheia depois do incêndio.
Limpou o cimento deixando apenas as pedras negras como se fossem novas.
As cinzas escorregaram pela encosta e foram levadas pela torrente de lama.
As árvores tombaram, desenraizadas.
Poucos peixes nadam no rio.
Só as pedras continuam no mesmo sítio.
E essas seguram-me as memórias.
De quando pulava por cima delas.
E tudo começa de novo.
Nada é jamais igual.
As coisas mudam.
Eu mudei.
Adaptei-me a um mundo que nem é o meu.
A uma terra... a outra terra.
A minha terra estava diferente.
E este tempo todo estive tão longe.
Mas senti-me mais perto, tão mais perto, quando lá voltei.
E tão mais longe quando de lá regressei.
Dedicatória:
Agora que peguei a moda, dedico esta nota que acabei de prender à Carolina Ó-i-ó-ai. Que, tal como eu, se sente mais próximo de casa por ver o nome da sua terra escrita num mapa.
Pequena nota para os outros:
Qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência.
Nota presa por Yosemite Sam às 21:51 0 anotações
27 março 2007
Tendinites...
Este assunto andava a moer-me o juízo, inconscientemente e sem qualquer razão aparente.
Na verdade só interiorizei a questão como uma preocupação quando um cardume de pré-adolescentes me perturbou um jantar, que tinha todos aqueles ingredientes para ser romântico.
Boa comida, boa bebida e uma vela acesa na mesa num espaço decorado com gosto e iluminado a meia-luz.
A companhia não podia ser melhor e a conversa estava agradável.
A sala era ampla e vários grupos jantavam, espaçados, numa noite de sábado que estava demasiado quente para ser de Inverno.
A maior parte das mesas agrupavam comensais em festas de aniversário.
A mesa maior estava reservada para a festa do décimo terceiro aniversário de uma pirralha qualquer.
O bando de jovens inconscientes que a acompanhava entrou, chilreando, de rompão no restaurante.
Acercaram-se da mesa e sentaram-se com espalhafato disputando os lugares entre eles.
O nível de ruído aumentou consideravelmente mas não se tornou insuportável.
Como disse, a companhia era a melhor e voltámos rapidamente à conversa.
A nossa comida foi entretanto servida e, no silêncio entre duas garfadas, foi impossível deixar de observar a trupe de putos emproados, de telemóveis em punho, exercitando os polegares.
As últimas gerações tecnológicas, os últimos gritos da moda adolescente, câmaras embutidas e ecrãs coloridos onde se mostram as fotografias.
Músicas são debitadas para os auscultadores enfiados nos ouvidos, toques e outros sons são partilhados por ligações sem fios.
As conversas giram em torno das capacidades dos pequenos aparelhos onde se mostram os retratos tirados no momento.
Isto desviou a minha atenção e a conversa resvalou para outro tema, porventura menos interessante.
A observação daquela dúzia em meia de projectos de pessoas levou-me à seguinte afirmação:
“– Os putos de hoje não sabem comunicar. Têm tudo, toda a tecnologia nas palmas das mãos, que lhes permite estar mais perto de tudo e de todos, mas não compreendem o que é comunicar.”
Realmente olhando para aqueles jovens, ainda crianças, constatei esse facto palpável.
Uns já andavam a cirandar pelo restaurante, dentro e fora, enquanto outros ainda comiam.
Uns e outros continuavam a mexer e remexer em telemóveis.
Alguns escutavam música, outros disparavam para mais um retrato, enquanto uns outros liam as últimas anedotas recebidas do vizinho do lado.
Fiquei chocado, tentando recordar-me se aos meus treze, quando saía com amigos para uma festa de aniversário, também demonstrava esta incapacidade.
As suas vozes misturavam-se mas os poucos excertos inteligíveis que me chegavam aos ouvidos eram ocos, desprovidos de conteúdo.
Depois foi uma rápida associação de ideias, que quase esgotavam a paciência da minha bela companhia.
As calinadas no português, fruto das tentativas de mitigar as tendinites nos pulsos e polegares, poupando caracteres preciosos nas mensagens de telemóvel e nas conversas na Internet.
O “K” substitui o “Q” e não só.
Dois pontos, parêntesis e outros sinais de pontuação valem mais do que as letras.
Mas mesmo em frases que perderam a sua estrutura, com palavras abreviadas e simbolismos gráficos – nada se diz.
O vazio de cultura é enorme e as gerações que agora se estão a educar cada vez se perdem mais nesse vácuo.
A tecnologia só por si não preserva o conhecimento, apenas os dados são armazenados.
O conhecimento é a interpretação das coisas e isso os jovens não sabem fazer.
A curva descendente aumenta o declive progressivamente.
Comparem com o que aprenderam os nossos pais nos primeiros anos de escola... e os nossos avós... aqueles que o puderam fazer.
Será o progresso a devorar os nossos neurónios?
Estará toda esta panóplia tecnológica a atrofiar os nossos cérebros?
Não seremos capazes de inverter a situação?
Saímos do restaurante, eu e a paciente mulher que me acompanhou...
Eu estava com vontade de pegar num livro... um qualquer só para sentir a textura do papel e ler umas linhas, um pedaço de prosa bem escrita ou um poema.
Já na rua, enquanto passeávamos de mãos dadas, apreciei o silêncio de uma noite tranquila, amena e perfumada a anunciar a Primavera.
De repente percebi qual é o defeito desta nova juventude – não sabe o que é o silêncio!
Fazemos silêncio para poder escutar.
Escutar os outros e o que nos rodeia, para podermos comunicar e aprender.
Dedicatória:
Esta pequena nota é dedicada a uma futura Educadora de Infância que tem a paciência necessária para educar os que vêm a seguir... e que faz o silêncio necessário para me ouvir.
Nota presa por Yosemite Sam às 23:35 0 anotações
12 março 2007
Pequeno nada...
O que é que vos faz sorrir?
Não estou a perguntar o que vos faz rir.
Toda a gente sabe. Só nos rimos do mal, ou da malandrice.
O que faz sorrir?
Nunca sorriram quando saiem de casa e cheiram a Primavera, numa qualquer manhã que promete um dia bonito?
Claro, eu sei, que choram logo a seguir por saber que têm de se enfiar num qualquer gabinete, fechado com ar condicionado.
Nunca sorriram quando se afundam nos lençóis numa qualquer fria manhã de Inverno, enquanto os raios e coriscos fazem das suas lá fora?
Obviamente que a acção seguinte é gritar, porque se apercebem que o despertador tocou há mais de meia hora e estão em risco de chegar atrasados.
Nunca sorriram enquanto lêem uma notícia interessante no jornal?
Antes de se aperceberem que está rodeada por notícias sangrentas.
Nunca sorriram quanto chega o instante de regressar a casa?
Instante anterior ao chefe vos convocar para uma reunião.
Nunca sorriram quando, na sexta-feira, o relógio marca a chegada do fim-de-semana?
Espreitam pela janela e vêem um magnífico pôr-do-sol, os dias estão mais longos e anunciam na rádio chuva para os dois dias seguintes.
Nunca sorriram a uma criança no autocarro, que vos espreita timidamente de soslaio?
Mesmo antes de serem apanhados, pela beata com que partilham o assento, a deitar-lhe a língua de fora.
Nunca sorriram a uma mulher bonita na rua?
Mais ainda quando ela vos sorriu de volta?
Para vos virar as costas e oferecer outro tipo de sorriso a alguém.
Nunca sorriram ao ver pardalitos atrevidos, aos pulos, a debicar migalhas numa esplanada?
Esvoaçando de mesa em mesa, antes de um pombo fazer das suas.
Nunca sorriram ao apreciar um par de borboletas, enquanto se perguntam como é que elas conseguem aterrar no mesmo sítio, sem se embrulharem uma na outra de forma irremediável? Ou como não ficam completamente zonzas?
Nunca sorriram ao ver o arco-íris?
Nunca sorriram sozinhos?
E não vos sabe bem sorrir?
E já se aperceberam da enorme quantidade de sorrisos que existem?
E como todo o corpo pode participar num sorriso?
Já notaram como é impressionante conseguirmos distinguir entre um sorriso e um mero esgar?
Ou como um simples trejeito tem, por vezes, mais significado que um sorriso rasgado?
É engraçado como até atribuímos cores aos sorrisos.
Eles vêm em amarelo, verde ou em cores mais neutras mas os meus preferidos são os avermelhados, numa face ruborescida, preferencialmente feminina.
Os sorrisos possuem luz.
Iluminam o espírito e mais do que isso.
Mas o que é o sorriso?
É uma coisa linda, não é?
Sorrir deve ser um traço de inteligência.
Afinal só sorrimos porque compreendemos algo.
Só sorrimos porque resolvemos pequenos enigmas que nos rodeiam.
Só Sorrimos porque não pensamos nas suas soluções.
Sorrimos porque apreciamos a simplicidade de um sorriso.
Sorrimos porque nos faz sentir bem.
Talvez seja instinto... não sei.
Digam lá... O que vos faz sorrir?
Nota presa por Yosemite Sam às 23:42 1 anotações
04 março 2007
Silêncio!...
Que se vai cantar o fado!
Esta foi uma frase que hoje não se ouviu. Não foi necessária. O silêncio impôs-se na sala quando as guitarras começaram a tocar e uma voz sentida se elevou.
Hoje confirmei que o Fado é mais do que a música. É o sentimento de um povo que, à sua maneira desajeitada, luta por uma vida melhor.
A alegria das pessoas que o ouvem e, especialmente, o carinho daqueles que se esforçam por trazer um pouco de Portugal aos portugueses cá fora, revelam a pureza do Fado na sua expressão mais singela e popular. E esse Fado dá gosto ouvir, sentir e saborear.
O silêncio que o antecede arrepia e as palmas que se seguem trazem as lágrimas da saudade.
Saudade de um país que escorraça os seus, que os faz emigrar.
Saudade dos lugares onde se cresceu, que já não se conhecem.
Saudade das vozes amigas, numa língua que já mal se fala.
Saudade dos sabores que a fome avivava.
No fundo saudade de nada.
Lágrimas derramadas por lembranças tristes.
Lágrimas de alegria por a vida voltar a sorrir.
Lágrimas por saber que não se pode voltar.
Lágrimas pela certeza que não se quer regressar.
Não sou capaz de ouvir Fado numa aparelhagem. Repudio mesmo as estrelas que o cantam, que nunca sentiram na pele o que é ser fadista...
Trilhar o mundo, labutar de sol a sol e morrer de pé longe da terra que os viu nascer.
Fado é destino... e fadistas os que o enganam.
Nota presa por Yosemite Sam às 01:56 0 anotações
25 fevereiro 2007
Momo...
Das várias questões existenciais que assombram o espírito humano, creio que aquela que me deixa mais frustrado, por não conseguir encontrar uma resposta sólida, terá a haver com as origens da normalização.
O ser humano gosta de definir normas, sente-se mais seguro se as seguir.
As peças da vida parecem mais simples de encaixar se seguirmos caminhos pré-determinados e tomarmos as opções normais a cada momento.
Tornamo-nos em vagões de um comboio que segue os trilhos que são colocados e mantidos pela sociedade, essa massa de gente normal que se agrupa espontaneamente. Vagões normalizados, em classes – primeira, segunda, terceira.
A locomotiva não se vê, está bem lá para a frente, expelindo fumo que nos tolda a vista e nos enche os pulmões de fuligem.
Mas o que é normal? Será ser igual aos outros?
E o primeiro de todos foi igual a quê?
A teoria do criacionismo reflecte a necessidade humana de normalizar. O criador teria uns moldes a partir dos quais criou todo o Universo e ter-nos-ia criado à sua imagem e semelhança.
Mas a natureza rejeita a normalização. Será mais difícil encontrar um círculo perfeito na natureza que um trevo de quatro folhas.
Aqueles que se mantêm iguais, que se tornam normais, extinguem-se.
O equilíbrio natural, que é mantido pela única lei que a Natureza conhece – a lei da sobrevivência, existe porque nada é normal. Ou porque será normal ser diferente!
Se a Natureza normalizasse existiriam apenas três espécies no planeta – vegetais, herbívoros e predadores. Não existiria esta biodiversidade que parece atrapalhar-nos.
A normalização é uma quimera, perseguida pela estatística, mas os seres humanos revelam características tão díspares que o grau de incerteza, apresentado em letrinhas pequeninas, se torna na única informação relevante.
E, não poucas vezes, na única informação de esperança.
Por diferentes escalas, em diferentes níveis, somos colocados em caixas normalizadas e fechados hermeticamente por determinados períodos. Finda a data de validade, somos reclassificados e novamente etiquetados.
Somos apenas mais uns, desta mole de gente, separados em porções para caber nas caixinhas.
Porque nem todos são altos e nem todos serão baixos.
Porque nem todos são gordos e nem todos serão magros.
Porque nem todos são bons e nem todos serão maus.
As classificações, as regras e os regulamentos, são criados por quem se sente normalmente superior. Por quem quer definir os níveis de normalidade inferior de quem vai a reboque na parte de trás do comboio. Mas esses esquecem-se que:
A evolução não é feita por aqueles que se tornam locomotivas.
A evolução é feita por aqueles que têm a coragem de descarrilar.
Influências:
Um filme que marcou a minha vida foi “Momo”, baseado no livro escrito por Michael Ende.
Quando o vi pela primeira vez era talvez demasiado novo para compreender as suas metáforas, mas os homens cinzentos perturbavam-me, eram todos iguais, descoloriam o mundo.
Michael Ende escreveu outro clássico da minha infância – “A História Interminável”.
A adaptação ao cinema d’“A História Interminável”, que vi antes de saber ler em condições, não cobre todo o enredo do livro e não agradou o autor. No entanto, é claramente transmitido o apelo ao uso da imaginação e fica demonstrada a destruição que provoca uma sociedade estéril de ideias.
Nota final:
Uma sociedade torna-se estéril de ideias quando os indivíduos que a compõem são restringidos ao seu espaço intelectual. Uma ideia nasce numa cabeça, não em muitas, mas normalmente só se desenvolve se puder ser partilhada.
Nota presa por Yosemite Sam às 01:06 0 anotações
20 fevereiro 2007
Três efes...
Não é do meu tempo a moda de descrever Portugal como a pátria dos três efes:
- Fado – que tinha em Amália a sua grande embaixadora;
- Futebol – com Eusébio, o Pantera Negra, a marcar golos pelo Benfica e pela selecção;
- Fé – onde Fátima se revela uma capital.
Estes efes resumiam não só uma realidade como eram, ainda, promovidos.
Uma campanha de propaganda para dentro e também para fora deste Império.
A voz da diva do fado ainda hoje faz vibrar os tímpanos de milhares de estrangeiros. Tenho a sensação estranha de que é mais ouvida, mais admirada e mais apreciada pelas gentes de fora.
O lugar que alcançou no Panteão Nacional, numa sala que mudou de nome(1) para a acolher e que obrigou a Assembleia da República a alterar a lei das transladações, será talvez um reconhecimento de um país que não sabe como lhe agradecer nem soube como a acariciar depois da revolução dos cravos.
A minha opinião sobre este assunto pouco conta, mas creio que o gavetão no cemitério dos Prazeres, seria uma maior atracção turística, assim ao jeito da Édith Piaf e dos outros ilustres no Père Lachaise(2). Esta opção manteria a cantora do povo junto do povo, nada mais justo.
Além disso a carreira 28 percorre um dos mais belos trilhos de Lisboa, subindo a colina mesmo até à praça S. João Bosco.
Se tivermos a sorte de não ficar bloqueados por um qualquer automóvel estacionado em cima dos carris na calçada do Combro.
Não sou um fã do Fado.
Fado é o destino, a sorte, a fortuna, nunca percebi porque têm de o rotular de triste e de o cantar amarguradamente.
É certo que a saudade é sentimento intrinsecamente luso e que o pessimismo tem um lugar reservado, de destaque, na nossa cultura, mas fado é uma palavra ambígua e prefiro levantar o moral.
De futebol não falo. Não evoluiu. Pelo menos não como desporto, talvez como arma de arremesso político e de propaganda. Aumentaram as maquias envolvidas, para que o efeito soporífero seja mais eficaz.
Quando o Eusébio se finar ainda hão de sugerir um sarcófago no Panteão.
Dos três tirámos dois, sobra um.
E cantam os Xutos:
Na Cova da Íria
Apareceu brilhando
A Virgem Maria”
Este será um tema mais melindroso.
Porque está enraizado mais fundo na nossa cultura.
Por não podermos retirar Portugal de um contexto mais vasto. Mais vasto no tempo e no espaço.
Como me considero agnóstico devo o respeito à Fé, seja ela qual for, mas reservo-me o direito à crítica, construtiva, sobre os dogmas que não encaixam na minha visão das coisas.
Sobre a religião escrevem-se tratados. Será um tema inesgotável para psicólogos ou sociólogos.
Hoje não vou por aí(3)... já fui noutros dias... provavelmente voltarei noutro dia.
Anotações:
(1) Amália, a primeira mulher no Panteão Nacional, foi transladada para a Sala dos Escritores. Não sendo escritora a sala foi renomeada Sala da Língua Portuguesa. Na mesma sala estão, se não me engano, Almeida Garret, João de Deus e Guerra Junqueiro.
Por acaso acho interessante, não consegui encontrar uma lista das personalidades sepultadas no Panteão Nacional. O sítio do IPPAR só se preocupa com a arquitectura das obras de Santa Engrácia.
Sei que estão por lá muitos ilustres Portugueses e que muitos outros são evocados por cenotáfios... mas quem?
(2) Père Lachaise é o cemitério do Este de Paris. Talvez seja um dos mais famosos cemitérios do mundo e seguramente um dos mais visitados. Entre outros famosos estão por lá Édith Piaf, Honoré de Balzac, Oscar Wilde, Moliere e Jim Morrison. Descobri que disponibilizam na rede uma visita virtual em: http://www.pere-lachaise.com/
Esta pode ser uma ideia para o cemitério dos Prazeres, ou mesmo para o do Alto de S. João... afinal também já estão para lá muitos famosos. Seria seguramente uma ideia excelente para o IPPAR apresentar o Panteão ao mundo e, quiçá, os outros monumentos sob a sua alçada.
(3) “Não vou por aí”... quem escreveu este verso? E qual o título do poema? Estas hoje valem o chupa.
Nota presa por Yosemite Sam às 00:07 2 anotações