27 março 2007

Tendinites...

Este assunto andava a moer-me o juízo, inconscientemente e sem qualquer razão aparente.
Na verdade só interiorizei a questão como uma preocupação quando um cardume de pré-adolescentes me perturbou um jantar, que tinha todos aqueles ingredientes para ser romântico.

Boa comida, boa bebida e uma vela acesa na mesa num espaço decorado com gosto e iluminado a meia-luz.
A companhia não podia ser melhor e a conversa estava agradável.

A sala era ampla e vários grupos jantavam, espaçados, numa noite de sábado que estava demasiado quente para ser de Inverno.
A maior parte das mesas agrupavam comensais em festas de aniversário.

A mesa maior estava reservada para a festa do décimo terceiro aniversário de uma pirralha qualquer.
O bando de jovens inconscientes que a acompanhava entrou, chilreando, de rompão no restaurante.
Acercaram-se da mesa e sentaram-se com espalhafato disputando os lugares entre eles.

O nível de ruído aumentou consideravelmente mas não se tornou insuportável.
Como disse, a companhia era a melhor e voltámos rapidamente à conversa.

A nossa comida foi entretanto servida e, no silêncio entre duas garfadas, foi impossível deixar de observar a trupe de putos emproados, de telemóveis em punho, exercitando os polegares.

As últimas gerações tecnológicas, os últimos gritos da moda adolescente, câmaras embutidas e ecrãs coloridos onde se mostram as fotografias.
Músicas são debitadas para os auscultadores enfiados nos ouvidos, toques e outros sons são partilhados por ligações sem fios.
As conversas giram em torno das capacidades dos pequenos aparelhos onde se mostram os retratos tirados no momento.

Isto desviou a minha atenção e a conversa resvalou para outro tema, porventura menos interessante.

A observação daquela dúzia em meia de projectos de pessoas levou-me à seguinte afirmação:
“– Os putos de hoje não sabem comunicar. Têm tudo, toda a tecnologia nas palmas das mãos, que lhes permite estar mais perto de tudo e de todos, mas não compreendem o que é comunicar.”

Realmente olhando para aqueles jovens, ainda crianças, constatei esse facto palpável.
Uns já andavam a cirandar pelo restaurante, dentro e fora, enquanto outros ainda comiam.
Uns e outros continuavam a mexer e remexer em telemóveis.
Alguns escutavam música, outros disparavam para mais um retrato, enquanto uns outros liam as últimas anedotas recebidas do vizinho do lado.

Fiquei chocado, tentando recordar-me se aos meus treze, quando saía com amigos para uma festa de aniversário, também demonstrava esta incapacidade.
As suas vozes misturavam-se mas os poucos excertos inteligíveis que me chegavam aos ouvidos eram ocos, desprovidos de conteúdo.

Depois foi uma rápida associação de ideias, que quase esgotavam a paciência da minha bela companhia.

As calinadas no português, fruto das tentativas de mitigar as tendinites nos pulsos e polegares, poupando caracteres preciosos nas mensagens de telemóvel e nas conversas na Internet.
O “K” substitui o “Q” e não só.
Dois pontos, parêntesis e outros sinais de pontuação valem mais do que as letras.

Mas mesmo em frases que perderam a sua estrutura, com palavras abreviadas e simbolismos gráficos – nada se diz.
O vazio de cultura é enorme e as gerações que agora se estão a educar cada vez se perdem mais nesse vácuo.

A tecnologia só por si não preserva o conhecimento, apenas os dados são armazenados.
O conhecimento é a interpretação das coisas e isso os jovens não sabem fazer.
A curva descendente aumenta o declive progressivamente.
Comparem com o que aprenderam os nossos pais nos primeiros anos de escola... e os nossos avós... aqueles que o puderam fazer.

Será o progresso a devorar os nossos neurónios?
Estará toda esta panóplia tecnológica a atrofiar os nossos cérebros?
Não seremos capazes de inverter a situação?

Saímos do restaurante, eu e a paciente mulher que me acompanhou...
Eu estava com vontade de pegar num livro... um qualquer só para sentir a textura do papel e ler umas linhas, um pedaço de prosa bem escrita ou um poema.
Já na rua, enquanto passeávamos de mãos dadas, apreciei o silêncio de uma noite tranquila, amena e perfumada a anunciar a Primavera.

De repente percebi qual é o defeito desta nova juventude – não sabe o que é o silêncio!

Fazemos silêncio para poder escutar.
Escutar os outros e o que nos rodeia, para podermos comunicar e aprender.



Dedicatória:
Esta pequena nota é dedicada a uma futura Educadora de Infância que tem a paciência necessária para educar os que vêm a seguir... e que faz o silêncio necessário para me ouvir.

12 março 2007

Pequeno nada...

 

O que é que vos faz sorrir?

Não estou a perguntar o que vos faz rir.
Toda a gente sabe. Só nos rimos do mal, ou da malandrice.

O que faz sorrir?

Nunca sorriram quando saiem de casa e cheiram a Primavera, numa qualquer manhã que promete um dia bonito?
Claro, eu sei, que choram logo a seguir por saber que têm de se enfiar num qualquer gabinete, fechado com ar condicionado.

Nunca sorriram quando se afundam nos lençóis numa qualquer fria manhã de Inverno, enquanto os raios e coriscos fazem das suas lá fora?
Obviamente que a acção seguinte é gritar, porque se apercebem que o despertador tocou há mais de meia hora e estão em risco de chegar atrasados.

Nunca sorriram enquanto lêem uma notícia interessante no jornal?
Antes de se aperceberem que está rodeada por notícias sangrentas.

Nunca sorriram quanto chega o instante de regressar a casa?
Instante anterior ao chefe vos convocar para uma reunião.

Nunca sorriram quando, na sexta-feira, o relógio marca a chegada do fim-de-semana?
Espreitam pela janela e vêem um magnífico pôr-do-sol, os dias estão mais longos e anunciam na rádio chuva para os dois dias seguintes.

Nunca sorriram a uma criança no autocarro, que vos espreita timidamente de soslaio?
Mesmo antes de serem apanhados, pela beata com que partilham o assento, a deitar-lhe a língua de fora.

Nunca sorriram a uma mulher bonita na rua?
Mais ainda quando ela vos sorriu de volta?
Para vos virar as costas e oferecer outro tipo de sorriso a alguém.

Nunca sorriram ao ver pardalitos atrevidos, aos pulos, a debicar migalhas numa esplanada?
Esvoaçando de mesa em mesa, antes de um pombo fazer das suas.

Nunca sorriram ao apreciar um par de borboletas, enquanto se perguntam como é que elas conseguem aterrar no mesmo sítio, sem se embrulharem uma na outra de forma irremediável? Ou como não ficam completamente zonzas?

Nunca sorriram ao ver o arco-íris?

Nunca sorriram sozinhos?

E não vos sabe bem sorrir?

E já se aperceberam da enorme quantidade de sorrisos que existem?
E como todo o corpo pode participar num sorriso?

Já notaram como é impressionante conseguirmos distinguir entre um sorriso e um mero esgar?
Ou como um simples trejeito tem, por vezes, mais significado que um sorriso rasgado?

É engraçado como até atribuímos cores aos sorrisos.
Eles vêm em amarelo, verde ou em cores mais neutras mas os meus preferidos são os avermelhados, numa face ruborescida, preferencialmente feminina.

Os sorrisos possuem luz.
Iluminam o espírito e mais do que isso.

Mas o que é o sorriso?
É uma coisa linda, não é?

Sorrir deve ser um traço de inteligência.
Afinal só sorrimos porque compreendemos algo.
Só sorrimos porque resolvemos pequenos enigmas que nos rodeiam.
Só Sorrimos porque não pensamos nas suas soluções.

Sorrimos porque apreciamos a simplicidade de um sorriso.
Sorrimos porque nos faz sentir bem.

Talvez seja instinto... não sei.

Digam lá... O que vos faz sorrir?

04 março 2007

Silêncio!...

Que se vai cantar o fado!

Esta foi uma frase que hoje não se ouviu. Não foi necessária. O silêncio impôs-se na sala quando as guitarras começaram a tocar e uma voz sentida se elevou.

Hoje confirmei que o Fado é mais do que a música. É o sentimento de um povo que, à sua maneira desajeitada, luta por uma vida melhor.

A alegria das pessoas que o ouvem e, especialmente, o carinho daqueles que se esforçam por trazer um pouco de Portugal aos portugueses cá fora, revelam a pureza do Fado na sua expressão mais singela e popular. E esse Fado dá gosto ouvir, sentir e saborear.

O silêncio que o antecede arrepia e as palmas que se seguem trazem as lágrimas da saudade.

Saudade de um país que escorraça os seus, que os faz emigrar.
Saudade dos lugares onde se cresceu, que já não se conhecem.
Saudade das vozes amigas, numa língua que já mal se fala.
Saudade dos sabores que a fome avivava.

No fundo saudade de nada.
Lágrimas derramadas por lembranças tristes.
Lágrimas de alegria por a vida voltar a sorrir.
Lágrimas por saber que não se pode voltar.
Lágrimas pela certeza que não se quer regressar.


Não sou capaz de ouvir Fado numa aparelhagem. Repudio mesmo as estrelas que o cantam, que nunca sentiram na pele o que é ser fadista...
Trilhar o mundo, labutar de sol a sol e morrer de pé longe da terra que os viu nascer.
Fado é destino... e fadistas os que o enganam.

25 fevereiro 2007

Momo...

Das várias questões existenciais que assombram o espírito humano, creio que aquela que me deixa mais frustrado, por não conseguir encontrar uma resposta sólida, terá a haver com as origens da normalização.

O ser humano gosta de definir normas, sente-se mais seguro se as seguir.
As peças da vida parecem mais simples de encaixar se seguirmos caminhos pré-determinados e tomarmos as opções normais a cada momento.
Tornamo-nos em vagões de um comboio que segue os trilhos que são colocados e mantidos pela sociedade, essa massa de gente normal que se agrupa espontaneamente. Vagões normalizados, em classes – primeira, segunda, terceira.
A locomotiva não se vê, está bem lá para a frente, expelindo fumo que nos tolda a vista e nos enche os pulmões de fuligem.

Mas o que é normal? Será ser igual aos outros?
E o primeiro de todos foi igual a quê?

A teoria do criacionismo reflecte a necessidade humana de normalizar. O criador teria uns moldes a partir dos quais criou todo o Universo e ter-nos-ia criado à sua imagem e semelhança.

Mas a natureza rejeita a normalização. Será mais difícil encontrar um círculo perfeito na natureza que um trevo de quatro folhas.
Aqueles que se mantêm iguais, que se tornam normais, extinguem-se.
O equilíbrio natural, que é mantido pela única lei que a Natureza conhece – a lei da sobrevivência, existe porque nada é normal. Ou porque será normal ser diferente!

Se a Natureza normalizasse existiriam apenas três espécies no planeta – vegetais, herbívoros e predadores. Não existiria esta biodiversidade que parece atrapalhar-nos.

A normalização é uma quimera, perseguida pela estatística, mas os seres humanos revelam características tão díspares que o grau de incerteza, apresentado em letrinhas pequeninas, se torna na única informação relevante.
E, não poucas vezes, na única informação de esperança.

Por diferentes escalas, em diferentes níveis, somos colocados em caixas normalizadas e fechados hermeticamente por determinados períodos. Finda a data de validade, somos reclassificados e novamente etiquetados.
Somos apenas mais uns, desta mole de gente, separados em porções para caber nas caixinhas.
Porque nem todos são altos e nem todos serão baixos.
Porque nem todos são gordos e nem todos serão magros.
Porque nem todos são bons e nem todos serão maus.

As classificações, as regras e os regulamentos, são criados por quem se sente normalmente superior. Por quem quer definir os níveis de normalidade inferior de quem vai a reboque na parte de trás do comboio. Mas esses esquecem-se que:

A evolução não é feita por aqueles que se tornam locomotivas.
A evolução é feita por aqueles que têm a coragem de descarrilar.


Influências:
Um filme que marcou a minha vida foi “Momo”, baseado no livro escrito por Michael Ende.
Quando o vi pela primeira vez era talvez demasiado novo para compreender as suas metáforas, mas os homens cinzentos perturbavam-me, eram todos iguais, descoloriam o mundo.

Michael Ende escreveu outro clássico da minha infância – “A História Interminável”.
A adaptação ao cinema d’“A História Interminável”, que vi antes de saber ler em condições, não cobre todo o enredo do livro e não agradou o autor. No entanto, é claramente transmitido o apelo ao uso da imaginação e fica demonstrada a destruição que provoca uma sociedade estéril de ideias.


Nota final:
Uma sociedade torna-se estéril de ideias quando os indivíduos que a compõem são restringidos ao seu espaço intelectual. Uma ideia nasce numa cabeça, não em muitas, mas normalmente só se desenvolve se puder ser partilhada.

20 fevereiro 2007

Três efes...

Não é do meu tempo a moda de descrever Portugal como a pátria dos três efes:

  • Fado – que tinha em Amália a sua grande embaixadora;
  • Futebol – com Eusébio, o Pantera Negra, a marcar golos pelo Benfica e pela selecção;
  • – onde Fátima se revela uma capital.

Estes efes resumiam não só uma realidade como eram, ainda, promovidos.
Uma campanha de propaganda para dentro e também para fora deste Império.

A voz da diva do fado ainda hoje faz vibrar os tímpanos de milhares de estrangeiros. Tenho a sensação estranha de que é mais ouvida, mais admirada e mais apreciada pelas gentes de fora.

O lugar que alcançou no Panteão Nacional, numa sala que mudou de nome(1) para a acolher e que obrigou a Assembleia da República a alterar a lei das transladações, será talvez um reconhecimento de um país que não sabe como lhe agradecer nem soube como a acariciar depois da revolução dos cravos.

A minha opinião sobre este assunto pouco conta, mas creio que o gavetão no cemitério dos Prazeres, seria uma maior atracção turística, assim ao jeito da Édith Piaf e dos outros ilustres no Père Lachaise(2). Esta opção manteria a cantora do povo junto do povo, nada mais justo.
Além disso a carreira 28 percorre um dos mais belos trilhos de Lisboa, subindo a colina mesmo até à praça S. João Bosco.
Se tivermos a sorte de não ficar bloqueados por um qualquer automóvel estacionado em cima dos carris na calçada do Combro.

Não sou um fã do Fado.
Fado é o destino, a sorte, a fortuna, nunca percebi porque têm de o rotular de triste e de o cantar amarguradamente.
É certo que a saudade é sentimento intrinsecamente luso e que o pessimismo tem um lugar reservado, de destaque, na nossa cultura, mas fado é uma palavra ambígua e prefiro levantar o moral.

De futebol não falo. Não evoluiu. Pelo menos não como desporto, talvez como arma de arremesso político e de propaganda. Aumentaram as maquias envolvidas, para que o efeito soporífero seja mais eficaz.
Quando o Eusébio se finar ainda hão de sugerir um sarcófago no Panteão.

Dos três tirámos dois, sobra um.
E cantam os Xutos:

“A 13 de Maio
Na Cova da Íria
Apareceu brilhando
A Virgem Maria”

Este será um tema mais melindroso.
Porque está enraizado mais fundo na nossa cultura.
Por não podermos retirar Portugal de um contexto mais vasto. Mais vasto no tempo e no espaço.

Como me considero agnóstico devo o respeito à Fé, seja ela qual for, mas reservo-me o direito à crítica, construtiva, sobre os dogmas que não encaixam na minha visão das coisas.

Sobre a religião escrevem-se tratados. Será um tema inesgotável para psicólogos ou sociólogos.
Hoje não vou por aí(3)... já fui noutros dias... provavelmente voltarei noutro dia.


Anotações:
(1) Amália, a primeira mulher no Panteão Nacional, foi transladada para a Sala dos Escritores. Não sendo escritora a sala foi renomeada Sala da Língua Portuguesa. Na mesma sala estão, se não me engano, Almeida Garret, João de Deus e Guerra Junqueiro.
Por acaso acho interessante, não consegui encontrar uma lista das personalidades sepultadas no Panteão Nacional. O sítio do IPPAR só se preocupa com a arquitectura das obras de Santa Engrácia.
Sei que estão por lá muitos ilustres Portugueses e que muitos outros são evocados por cenotáfios... mas quem?

(2) Père Lachaise é o cemitério do Este de Paris. Talvez seja um dos mais famosos cemitérios do mundo e seguramente um dos mais visitados. Entre outros famosos estão por lá Édith Piaf, Honoré de Balzac, Oscar Wilde, Moliere e Jim Morrison. Descobri que disponibilizam na rede uma visita virtual em: http://www.pere-lachaise.com/
Esta pode ser uma ideia para o cemitério dos Prazeres, ou mesmo para o do Alto de S. João... afinal também já estão para lá muitos famosos. Seria seguramente uma ideia excelente para o IPPAR apresentar o Panteão ao mundo e, quiçá, os outros monumentos sob a sua alçada.

(3)
Não vou por aí... quem escreveu este verso? E qual o título do poema? Estas hoje valem o chupa.

07 fevereiro 2007

Audácia...

Em 2006, George F. Smoot partilhou o prémio Nobel da Física com John C. Mather, pela descoberta das propriedades da Radiação Cósmica de Fundo (Cosmic Background Radiation).

Em poucas palavras, tentando ser sucinto, a Radiação Cósmica de Fundo, microondas que viajam por esse espaço negro, será quase tão antiga como o próprio Universo.
São os primeiros raios de luz que se libertaram da massiva bola de energia e matéria que existiu pouco depois do Big Bang.

Sempre que olhamos para o céu estamos a olhar para o passado.
Recebemos a luz do Sol cerca de oito minutos depois desta ser libertada pela nossa estrela e os pontos luminosos que apreciamos no céu nocturno são luz emitida há milhares de anos.
A radiação de fundo permite-nos olhar para um passado ainda mais distante.

A ideia destes peritos é um pouco como a dos meteorologistas... mas a escalas diferentes.
Os modelos criados pelos meteorologistas para que seja possível prever o tempo, ainda que com algum grau de incerteza, foram criados com base na recolha de uma enorme quantidade de informação, durante os últimos séculos.
Estes meteorologistas espaciais pretendem prever o futuro do Universo e para isso querem analisar os dados do passado, verificar a sua evolução e construir um modelo que seja minimamente fiável.
A radiação cósmica apresenta-se como um registo fidedigno de tudo o que se passou...
Claro que é preciso recolhê-la e saber analisá-la e foi exactamente nessa área que George Smoot deu um grande contributo para a ciência.

George Smoot esteve presente na apresentação à imprensa do satélite Planck, que está a ser construído pela Agência Espacial Europeia para estudar estes assuntos em profundidade, e concedeu uma curta entrevista.

Nessa entrevista, algo informal, afirmou que este género de conquistas científicas e os objectivos a que a Humanidade se propõe alcançar revelam uma extrema audácia.
Na realidade, como ele muito bem coloca a questão, a Humanidade está a tentar perceber o passado e o futuro do tempo e da matéria do vasto Universo olhando para o “vazio” a partir de um minúsculo grão de areia confinado num brevíssimo intervalo de tempo.

Se pensarem que:
- se estima que o Big Bang aconteceu há uns 15.000.000.000 (quinze mil milhões) de anos, mais milénio menos milénio
- que o nosso calhau tem qualquer coisa como 4.567.000.000 (cerca de quatro mil milhões e meio) de anos, mais século menos século
- e que o Homo sapiens se desenvolveu há “apenas” pouco mais de umas centenas de milhar de anos (200.000 a 300.000 anos).

Percebem rapidamente que as escalas de tempo envolvidas são demasiado grandes para que façamos contas de cabeça e que será realmente um feito se alguma vez conseguirmos compreender o que se passou antes de abrirmos os olhos.

Gostei de me sentir audacioso, de ter sentido que pertenço a uma espécie curiosa e exploradora do Espaço e do Tempo.

Mas o que mais apreciei da entrevista de George Smoot, foi a sua candura inocente quando sentiu a necessidade de justificar porque dedica o seu intelecto e, enfim, a sua vida a esta causa... a este conhecimento longínquo.

Não vou apresentar as suas palavras uma por uma, teria de as traduzir do Inglês e poderia cometer alguma incorrecção mas deixo aqui o essencial das suas convicções.

Para George Smoot, conhecer e validar cientificamente as origens e o futuro será convergir para uma teoria única, que será reconhecida pela Humanidade como válida. Unificará crenças e religiões, eliminará conflitos.
Isto numa altura em que as tensões mundiais estão elevadas, que a Humanidade terá novos desafios, vai ter de descobrir caminhos alternativos, para produzir energia, para atenuar as alterações climáticas, et cetera.

Uma ideia ingénua? Utópica? Talvez... mas é reconfortante.
De um optimismo genuíno. E de esperança.



O que ele não disse foi que no verso desta medalha está o esforço financeiro, estão os vários milhões que se lançam ao espaço para tentar perceber estas coisas, não poucas vezes em desperdícios, em projectos ineficientes... em corridas à Lua ou maratonas a Marte...
Está em ficar pelo caminho ou atrasar a chegada por meras opções políticas... está em ser do contra só porque sim.

Antes de unificar ainda há que resolver quezílias surdas, mudas e mal disfarçadas entre intervenientes directos nas decisões de projectos científicos deste nível, que sobrepõem interesses pessoais e nacionais, entre outros, aos interesses da Humanidade.

Ignorados por estes dois reversos do universo estão os milhões que morrem de fome, que olham as estrelas porque não têm mais nada... e estão tantos problemas que permanecerão insolúveis...

Entre o Longe e o Tudo está o Nada.

Certo é que o Universo existia antes e existirá depois deste breve sopro de vida humana.
Como dizia alguém, nada se perde, tudo se transforma...
Os átomos que nos animam serão matéria-prima de outras estrelas e outras galáxias.

Acho que o maior problema está em aceitarmos a nossa insignificância... e em aceitá-la com dignidade.

Há que voar! Alto! Longe! Mas não devemos esquecer as nossas origens, as nossas raízes.
Ao escaparmos a força gravítica deste planeta azulado não devemos esquecer aqueles que deixamos para trás.
E devemos estender-lhes a mão e levá-los a passear connosco... afinal somos apenas matéria e energia...


Anotações:
Um artigo sobre a apresentação do Planck pode ser visto aqui:

http://www.esa.int/esaSC/SEMM3XSMTWE_index_0.html

As ligações para a entrevista estão a meio do artigo, o vídeo está dividido em duas partes.
Outras informações sobre a Radiação Cósmica podem ser encontradas no mesmo sítio.

25 janeiro 2007

Tema...

Há tempos um amigo perguntou-me, com ar sério, porque não escrevia eu um livro.
Obviamente o rapaz não lê estas notas... se o fizesse já saberia a resposta.
Na altura não respondi, ri-me e não pensei mais no assunto.

Hoje, enquanto fazia o jantar, descobri a resposta.
Se eu escrevesse um livro haveria de ser sobre culinária prática.
As razões são várias e enumero-as de seguida.


Não tenho estofo para mais!
Sejamos realistas!
Não tenho a imaginação dos grandes mestres da literatura.
Não tenho a prosa criativa que se exige numa obra-prima.
Nem tenho a arte necessária a uma poesia sem rima.

Limitado que estou, teria de escrever sobre um qualquer tema que não exija muito do meu estéril engenho criativo.

Gosto de ver os outros felizes, gosto de ver sorrisos e ouvir gargalhadas.
Sem jeito para a comédia teria de me apresentar como o jogral de serviço.
Como não tenho outras aptidões...

Teria de assumir que sou um perito na arte de cozinhar manjares intragáveis, desenrascando os ingredientes, essenciais às receitas, que estão em falta porque me esqueci de os comprar.

Teria de alardear que sou hábil no empilhamento da loiça por lavar.
Ilustraria com esquemas e algumas noções básicas sobre a lei da gravidade aplicada a copos, pratos e outros acessórios.

Porque sei que estes assuntos são caros à minoria masculina que habita este planeta, faria um esforço para incluir capítulos sobre: “como vencer a timidez e perguntar à mulher onde ela arrumou os tachos” e “como explicar à mulher que para se cozinhar é necessário sujar a cozinha e por vezes outras divisões da casa”.

Seria um livro apreciado pela maioria feminina, que o leria complacente para com os homens que se aventuram na sua esfera territorial, que sentiria a vaidade de ler as suas virtudes sublimadas pela incompetência crónica dos homens.

Atingido o vasto grupo dos leitores adultos, homens e mulheres, bastaria, para garantir que seria um campeão de vendas e de cópias piratas, incluir alguns desenhos para colorir.
Garantindo também presença na secção de livros infantis.
Seria um livro para toda a família, para os solteiros, os casados e os divorciados de todas as idades.


Por estas e por outras acho que se resolver um dia escrever um livro, salvo se as condições apresentas se alterarem radicalmente, este será ilustrado e versará sobre a gastronomia britânica. Será curto. Insalubre mas colorido!

Como tenho uns resquícios de pudor não me meto nisso.


Pequena nota para a minha mãe:
Não te preocupes mãe! Não estou a passar fome.
Não mãe, isto é tudo a fingir.
Sim, o micro-ondas funciona muito bem!
Pensei em arranjar loiça descartável mas isso é muito mau para o ambiente.
Como é que fazes o molho do esparguete à bolonhesa ficar com aquela cor avermelhada?

23 janeiro 2007

Cabo...

Solta a morna nesse crioulo doce!
Vibra as cordas da guitarra nessa bossa-nova suave!

Embala com essa cantiga de ninar!
E solta a voz nesse landu maroto!
Meneia com essa coladeira!
Samba devagar esse funaná!

Ai, mulatinha canta!
Ah, mulatinha dança!
Aroma da Praia, sabor a Sal!
Ah, mulatinha canta! Dança!
Canta e encanta!


Anotem:
Mayra Andrade.
Lançou o seu primeiro album - Navega - em 2006.
Precedeu Omar Pene e Salif Keita no midem.
Brilhando sem ofuscar para um público apático.

21 janeiro 2007

Lado oposto...

Pouco passa das três da tarde.
O Sol apresenta-se com um brilho tímido, entrecortado por uma camada de nuvens altas.

Estou parado no trânsito sem saber porquê.
Uma multidão deambula pela rua, aparentemente sem objectivo.
É domingo, um aprazível domingo de Inverno.

Cinco minutos mais à frente, um cartaz de cores garridas anuncia o início de um qualquer festival de música.
Nada mais banal, penso eu, numa terra que tem um palácio de festivais.

A polícia interrompe o trânsito, um, dois, três bólides de luxo cruzam a estrada em direcção a um hotel. Vidros escurecidos ampliam a curiosidade de quem espreita à espera de ver os artistas.

Um bando de gentalha histérica corre atrás das viaturas. Máquinas fotográficas em punho e blocos de notas esperançados num autógrafo.

Crianças saltam, alegremente, nuns trampolins do outro lado da rua. O carrossel anuncia nova viagem e recomeça a girar. Gelados, pipocas e algodão doce...
A pureza dos seus risos é um contraste gritante com os espasmos colectivos em frente ao hotel.

Maralha que deixa de apreciar a simplicidade das coisas, que procura na confusão um rasgo de felicidade efémera, nos sorrisos de outros por entre os disparos dos obturadores, comprimidos contra a vedação.

O trânsito avança devagar, libertando-me do tumulto. Passo à frente do hotel e olho para a alegria sincera das crianças no lado oposto.

19 janeiro 2007

Queijo...

Começo pelo supermercado, onde fui para comprar duas ou três coisas, antes de regressar a casa depois de mais uma semana de trabalho.

Ignorei a minha regra básica número um das compras: “Não ir às compras com fome.”
Resultado: gastei umas sete vezes mais dinheiro e cerca de cinco vezes mais tempo do que o inicialmente previsto.
Isto para não falar da quantidade de comida de qualidade e gosto dúbios que comprei a pensar que devia experimentar.
Afinal meti para o cesto um monte de coisas que na altura tinham um aspecto apelativo mas que agora... enfim... alguém há-de comer aquilo, hei-de ter fome noutros dias.

A verdade é que saí de lá contente e ainda parei naquela padaria da esquina para comprar uma baguette quentinha.

Confesso que depois de um repasto avantajado e carregado de sabores ricos e fortes, fiquei orgulhoso. Ao fim de quase um ano de exílio, consegui finalmente descobrir sabores mais de acordo com o meu requintado palato lusitano.
Um salsichão bolorento, umas fatias de paio, um pedaço de queijo de cabra, umas azeitonas retalhadas temperadas com alho e, em estreia absoluta, manteiga com sal.

Esta manteiga vai muito melhor no pão quentinho que aquela mixórdia doce, que vendem às toneladas e a que chamam beurre doux.

Claro que continuo a perceber patavina de queijos franceses, aliás hoje afirmei ao almoço que é difícil encontrar um bom queijo em França.
O meu erro foi tê-lo afirmado, em francês, a uma mesa cheia de franceses.
Embora ofendidos não me deixaram os olhos negros. Uns porque me acharam estupidamente ignorante e acharam que não merecia o esforço e outros porque olharam para mim e acharam que eu chegava para eles.
Obviamente, encheram-me a cabeça com as virtuosidades das queijarias francesas e de todas as outras coisas que eles consideram a excelência da gastronomia Universal.

Bem, fugi ao assunto do dia... hábito que não consigo perder e contra o qual continuo os meus exercícios de reabilitação. O que eu queria anotar hoje era, com certeza, muito mais interessante que estas discussões surdas sobre comida, com tipos que têm papilas gustativas primárias, que não acompanharam a evolução ou que foram manipuladas geneticamente.
Mas tenho a barriguinha cheia, com sabores agradáveis. Estou satisfeito.

Dizem que o que o queijo faz esquecer... se calhar foi isso...

10 janeiro 2007

93...

Acabaram-se as Festas! Ufa finalmente!
Chegou ao fim a época mais estúpida e hipócrita do ano.

E dei mais uns dias de descanso a estas notas, pois poderia ainda escrever algo menos apropriado para esta quadra que se quer de Paz.

O meu telefone deixou finalmente de anunciar aquelas curtas mensagens escritas, cheias de amor e carinho, enviadas por aqueles que para nós só existem nas agendas esquecidas nas memórias dos aparelhos.

O comércio já acusa a falta da clientela rafeira, que enche os centros comerciais durante três semanas inteiras e ainda pergunta porque é que as lojas não estão abertas até à meia-noite do dia 24.
Grandes autocolantes e cartazes anunciam nas montras as Promoções e Saldos.

Afogados nas contas, nos rios de dinheiro que se gastaram nestes dias festivos, Janeiro é um mês duro e longo. E ainda se seguem Fevereiro, Março, Abril, Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro, Outubro e Novembro antes de um novo Dezembro.

Já houve tempos em que eu gostava da quadra natalícia.
Vibrava com a antecipação de uma mesa cheia, de comida e de gente, enquanto polvilhava os sonhos e filhoses, com açúcar e canela, que a minha avó fritava durante horas a fio.
Ao redor do bacalhau e das couves da consoada, a excitação que se começava a elevar, era alimentada também pelos sorrisos mais rasgados e risos mais altos do que habitualmente.
Terminada a sobremesa os minutos até às doze badaladas eram sempre tão compridos que fazia por comer devagar ou continuar a saborear outras iguarias.

Mas isso era antes... antes de crescer.

Depois veio a constatação de que o Natal é só para alguns poucos felizardos.
Que a esmagadora maioria do mundo não recebe um presente.
Veio a noção de que os valores que se pregam nestas datas são esquecidos durante o resto do ano.
Que a sociedade está mergulhada num sentimento consumista e que se consome a si própria.
As tradições perder-se-ão. Dentro em breve não serão mais que resquícios nos livros de contos.

Antes sorria, com compaixão, quando lia o conto “Natal” do Torga.
Este ano, quando o procurei nas prateleiras da estante e reli, dos meus olhos escorreram lágrimas de uma pura tristeza reconfortante.
Não é pela minha formação católica que me revejo naquele conto, mas sim pelos valores que o meu juízo filtrou como válidos e que defendo com a minha honra.
Filtros de alguma lógica e bom-senso que devo à família.

A família também se renova, as gerações sucedem-se.
Talvez um dia o meu entusiasmo renasça das cinzas e voe como a Fénix, nos rostos e corações dos mais novos que hão-de vir.
Passarei o testemunho!

A felicidade está e estará sempre nas coisas simples.

Nota nostálgica esta, afirmarão vocês com toda a convicção.
Terão razão.

Como eu disse a família renova-se.
Com esta nota, a primeira presa em 2007, assinalo a morte da Vó Xandrina.
Para mim, ela representará sempre mais que os outros a quem fiz referência neste bloco de notas. Se fui capaz de assinalar outras efemérides necrológicas, algumas tecendo largos elogios, por uma questão de coerência terei de perpetuar, aqui também, a memória da minha avó.

Vó Xandrina
Alexandrina dos Prazeres, senhora dos seus 93 aninhos, não acreditava que o Homem tinha caminhado na Lua mas acreditava em nós, nas três gerações que gerou e criou.
Fico apenas chateado por ela me ter faltado à promessa de esperar pela quinta geração da família.
Sei que tenho a minha cota parte de responsabilidade nesse aspecto e que há limites que nos são impostos pela Natureza.
Por isso afirmo que aqueles que serão nados saberão quem ela foi, o que fez, o que disse.
Saberão também quem foram os outros de quem serão descendência.
Há coisas que têm de ser preservadas.

E assim começa 2007. Como 2006 terminou.
Gente a nascer e gente a morrer...
Celebre-se a vida.
Com mais entusiasmo e sentimento que o Natal.


Pequena nota:
Para quem não conhece "Natal", procure-o nos "Novos Contos da Montanha" de Miguel Torga.

19 dezembro 2006

Tom e...

Qual o nome que vem a seguir?

Dastardly and Muttley - Wacky Races (As Corridas Mais Loucas do Mundo)Por uma resposta correcta a esta pergunta, eu não ofereço nenhum chupa. Por isso escusam de começar aí a babar só de imaginar aqueles chupas grandes e coloridos ou os outros, que eram os vossos preferidos, aqueles que adoravam quando eram pequenos e pelos quais pediam 25 tostões que à vossa mãe tinham custado a ganhar.

FlinstonesHoje foi notícia em todos os serviços noticiosos que são minimamente dignos desse epíteto, a morte de Joseph Barbera.

Desde pequenos que convivemos com as maravilhosas criações da dupla Hanna-Barbera, das quais Tom & Jerry são as mais notáveis.

Top CatA notícia, vista de raspão na Internet, chocou-me.
Não pela morte do artista em si mesmo, afinal o homem já tinha 95 anos, mas porque, olhando para o panorama actual da cultura infantil, com o seu desaparecimento não vejo sucessores à altura. Isso deixou-me triste.

The JetsonsRegressei a casa e a notícia voltou a surgir nas minhas incursões pela rede.
Foi então que resolvi escrever esta nota.
Taciturno e nostálgico, preparei-me para escrever aquelas palavras tristonhas, pesadas, que quando se lêem arrepiam e nos deixam calados.

Para ilustrar o texto procurei alguns desenhos, nem vinte segundos passaram e...



Como que por artes mágicas o meu sorriso voltou e as minhas gargalhadas fizeram-se ouvir no edifício.

Scooby-DooSe a minha vizinha não tivesse a consciência pesada, por fazer todos os dias uma chinfrineira maior que qualquer banda filarmónica durante um ensaio, com pratos, tubas e bombos, provavelmente teria batido à minha porta para me mandar calar.

É virtualmente impossível ficar imune a um simples desenho de uma qualquer cena de Tom & Jerry. Desafio qualquer um a tentar!


Atom Ant (Formiga Atómica)E como a tecnologia é uma maravilha, até vídeos se encontram por ai... ri até me doerem os abdominais.

Rendi-me!... a minha disposição melhorou exponencialmente e esqueci todas as palavras carrancudas.

E por isso esta nota vai ser curta.
Vou ver mais uns bonecos!


Tom e Jerry

O jogo do gato e do rato é um clássico mais velho que o tempo mas foi reinventado e descrito com a mestria que só está ao alcance de alguns predestinados.




 

 


Obrigado Bill.William Hanna e Joseph Barbera com Tom e JerryObrigado Joe.


Pelo Tom, pelo Jerry, pelos Flintstones, pelos Jetsons, pelas Wacky Races, pelo Scooby-Doo, pelo Top Cat, pelo Yogi Bear (Zé Colmeia), pela Formiga Atómica e por tantos outros que agora não me lembro mas que me apetece rever.

18 dezembro 2006

Novo Reino...

O Mundo é redondo e gira.
Roda em torno de si próprio.
Ciclo que marca o compasso da vida.

E o movimento é pleno, circular.
A noite encontra o dia e o dia mergulha na noite.
Cão que corre atrás da sua cauda.
Pescadinha de rabo na boca.

E no fim voltamos ao princípio.
Do princípio partimos para o fim.

E as ilógicas sequências de acontecimentos rodopiam e tornam-se evidentes quando alargamos a escala temporal.

Camões, esse “Príncipe dos Poetas”, essa luz maior no firmamento da nossa cultura, eternizou a epopeia portuguesa. Verso após verso, estrofe após estrofe, encerra nos Lusíadas várias revoluções do globo e conclui um ciclo da história.

A sua obra-prima é, segundo reza a lenda, inspirada na decadência do reino.
O círculo volta a fechar-se, é na decadência que se invocam as memórias dos grandes feitos.
O Luís Vaz quis preservar o estado de graça da sua pequena Pátria e do seu grande Império.

Mas Camões é também um elo desta corrente que nos cinge à nossa condição, é parte integrante deste todo. A sua influência é tão positiva que se repercute também nas páginas negras da história.
Talvez seja isso que define os grandes génios, a sua capacidade para unir os opostos.
Como tantos outros génios, que viveram antes e depois, o Poeta dá o seu contributo para a glória e para a desventura.

Camões abraça e beija a Pátria e instiga-a a feitos maiores.
Os Lusíadas são um grito de incitamento!
Desenha o mapa dos caminhos trilhados e dos mares navegados.
Mostra “a grande máquina do Mundo”.

Mas Luís Vaz de Camões dedicou o seu poema épico a D. Sebastião.
E, apontando “o Mouro frio”, exalta os seus feitos futuros ao serviço da Lusitana liberdade e “aumento da pequena Cristandade”.

D. Sebastião, “o novo temor da Maura lança”, parte à conquista de África, que nunca será sua, e entrega o destino de Portugal à sorte que se conhece.

Camões morre, meses antes de Filipe II de Espanha se tornar o I de Portugal, afirmando: “Ao menos morro com a patria”.

E as águas do tempo fluíram até ao mar, evaporam-se, choveram e voltaram a brotar nas nascentes.
E a memória do Poeta preservada e enaltecida à justa luz dos seus feitos e escritos.


Pequenas anotações:

Camões atribui a D. Sebastião aquela que é, na minha singela opinião, a maior homenagem que algum português jamais recebeu. É a D. Sebastião que as 1102 estâncias dos Lusíadas são dedicadas.
Quis o irónico destino que essa dedicatória ficasse imbuída de um simbolismo próprio que eu considero transcender a conjuntura histórica.
Para mim é um reflexo de nós próprios, do ego e orgulho maiores do que conseguimos albergar dentro de nós, que nos fazem desperdiçar as nossas potencialidades e as oportunidades de que dispomos.


A influência dos génios na história do mundo é por demais evidente.
Albert Einstein, ciente das reacções em cadeia dos átomos de urânio, cometeu, segundo o próprio afirmou, o maior erro da sua vida quando escreveu a Roosevelt.

15 dezembro 2006

Fecho os olhos...

 

Apetece-me fechar os olhos...
Recostado num sofá... lá longe...

Sentado numa cadeira, enterro a cabeça nas mãos e fecho os olhos.

Escuto ruídos...
Uma criança que grita e chora...
Mobília que se arrasta no fim de um jantar...
Sons estridentes que me rasgam os tímpanos...

Uma televisão...
Uma música que toca...

Sinto nas minhas têmporas o ritmo do meu sangue.
Estou tenso e tento relaxar.
Músculos tão retesados que magoam.

De repente o silêncio...
Apenas um ventilador continua o seu zumbido...
Uma torneira pinga.

Encosto as costas no espaldar da cadeira...
Olhos fechados...
Respiro com mais calma...
Massajo as cervicais que doem debaixo dos meus dedos.
Dor e alívio...

Ganho coragem para me levantar.
Respiro fundo e sigo para a cama.

Preparo-me devagar... sem pressas...
Antecipo o momento em que volto a fechar os olhos...

O meu corpo quente recebe com prazer o frio dos lençóis.

Aconchego-me...
Fecho os olhos...
Respiro fundo...
Adormeço...

Deixando para amanhã algo do que poderia ter feito hoje.

13 dezembro 2006

MCXLIII...

No decorrer de uma amena cavaqueira alguém afirmou que o D. Afonso Henriques teria sido o rei português que fez o maior erro da nossa história.
Esta insólita acusação foi sustentada na opção táctica, segundo o meu interlocutor errada, de reconquistar para Sul em vez de conquistar para Leste.

A coisa foi apresentada num tom de voz tal, que deixou no ar a insinuação de que o Afonso, no auge da sua juventude, teria comido uns cogumelos alucinogénios antes de partir com o seu exército à conquista dos castelos mouros.
Eu rejeitei, peremptoriamente, este impropério!

Anos mais tarde, por mero exercício de retórica, resolvi analisar alguns dos prós e contras desta teoria. Afinal estamos, ao que dizem, na época em que o contraditório está na moda e só me fica bem aceitar e respeitar as opiniões dos mais velhos.

A minhas pequenas células cinzentas(1) devem ter escurecido bastante devido ao esforço aplicado, durante horas e dias a fio, na tentativa de prever todas as consequências de uma conquista para Leste.

Não atingi uma conclusão que me agradasse e por isso assumi, nas restantes reflexões, que a ideia seria conquistar não só para Leste mas também para Norte, ocupando toda a faixa norte da Ibéria.
Espanha teria as restantes três fronteiras iguais e no pedaço Sul, que sobraria do canto ocupado hoje por Portugal, estariam os Sarracenos.

Como não quero ser acusado de ser fundamentalista, nem tão pouco influenciar o vosso julgamento, apresento uma pequena compilação não classificada.

Portanto, se o Conquistador tivesse seguido para Leste:

  • Integraríamos no nosso território a cordilheira cantábrica e parte dos Pirinéus.
    Belas paisagens e picos bem acima dos dois mil metros, mais altos ainda que o Pico.

  • Portugal teria um acesso mais directo ao mar do Norte.
    Pouparia muito combustível para ir pescar bacalhau. E para Norte seria mais fácil de descobrir do que para Sul. Talvez atormentássemos os povos do Norte, assim ao jeito dos Vikings.

  • Não existiria a expressão “amigos de Peniche”(2). Seriam amigos doutra terrinha qualquer.

  • Olivença era espanhola (ou marroquina) e nós não nos preocupávamos com isso.

  • Com os galegos não haveria dificuldades, acho que eles até preferiam ser portugueses, mas com os bascos, que querem ser bascos, poderíamos ter problemas.
    Para terroristas com manias independentistas já nos chega o governo regional da Madeira. Isto partindo do pressuposto que as ilhas eram nossas.

  • Devido ao fluxo de imigração ilegal, já teria sido construído um muro ao longo das fronteiras terrestres entre Marrocos e os outros dois países da península.

  • Faríamos fronteira com a França.
    Se Napoleão atravessou toda a península e contou com a ajuda dos espanhóis, para nos tentar invadir, o que aconteceria se estivéssemos entalados entre essas duas nações?

  • A Lusitânia não estaria incluída nos nossos territórios.
    Seria muito complicado designar aqueles a quem, com orgulho hipócrita, chamamos de Luso descendentes, filhos de uma quarta ou quinta geração de emigrantes bem sucedidos, no Canadá ou noutro país qualquer.

Fiquei depois a matutar como seria o mundo se Portugal tivesse crescido na outra direcção.
Eis algumas perguntas para as quais não obtive respostas concretas:

  • Teríamos descoberto o Mundo?
  • Os brasileiros falariam árabe e os norte-americanos português?(3)
  • Sobre quem recairiam das piadas que hoje são sobre alentejanos?
  • O azeite seria tão bom como o nosso ou seria parecido com o óleo de colza espanhol?
  • E as sardinhas? Como toda a gente sabe, quando são pescadas fora das actuais águas portuguesas perdem a maior parte das suas qualidades.

Estas dúvidas existenciais apenas reforçam aquilo que o meu instinto me dizia: o Afonso não era tolo. Fê-la bem feita!

Eu cá sempre admirei o Afonso, o Fundador. Ele foi o primeiro!
Órfão de pai, teve de mostrar à mãe quem era o homem lá em casa.
Depois dessa pequena querela familiar, o rapaz ganhou o gosto pela espadeirada e descarregou tanto nos mouros (afinal não se deve bater na família), que ganhou o direito a ser rei de um país.

Em Zamora, a 5 de Outubro de 1143 (quem não sabe esta data não é Português!)(4), foi assinado o tratado no qual Castela, Leão e aqueles reinos que para ali estavam a oriente, reconheceram Portugal como um reino independente.

Por tudo isto ilibo de vez o D. Afonso Henriques.
Além de que, cá para mim, houve um rei que fez uma asneira muito maior. Precisamente aquele a quem foi prestada a maior e mais simbólica homenagem jamais prestada a um português!(5)
Irónico não é?

T.P.C.
(1) “Pequenas células cinzentas” é uma expressão colocada com mestria na boca de um famoso detective. Sabem de quem estou a falar?
(2) De onde vem a história dos “amigos de Peniche”? Na pequena lista que apresentei faço mais duas referências explícitas a esse período conturbado da história. Conseguem identificá-los?
(5) O rei é D. Sebastião e a asneira é sobejamente conhecida. Sabem qual foi a homenagem que lhe foi prestada? Esta hoje vale o chupa.

Nota para pensar:
(3) Já imaginaram como estaria neste momento o equilíbrio do mundo se os Estados Unidos tivessem sido criados por portugueses e o Brasil fosse um estado muçulmano? Estou tentado a acreditar que a geopolítica louca em que estamos embrulhados seria bastante diferente...


Nota extra:
(4) O dia em que o tratado de Zamora foi assinado é celebrado como feriado nacional mas por um motivo diferente.
Ironicamente, ou talvez não, exactamente 767 anos depois de o reino ter sido oficialmente criado, acabou-se com a monarquia e implantou-se a república.

03 dezembro 2006

Chupa-chupas...

Há uma data que quem não a sabe não é Português.
Este é, para mim, o teste básico à origem do sangue que vos corre nas veias.
Qual a data e porque é que lhe é atribuída tanta importância?

A propósito, esse dia é feriado em Portugal?

A primeira resposta a estas perguntas recebe um chupa-cupa.
O mesmo prémio será oferecido à primeira resposta correcta e bem justificada.
E ofereço um terceiro à resposta que, certa ou errada, eu considerar mais original.

Sorrir...

Disseram-me aqui há dias que estas notas revelavam nostalgia.
Sou levado a concordar, até certo ponto, com essa ideia.
Afinal estou a exercitar a minha memória, são as recordações que temos da vida que acabam por revelar quem somos.
Mas estou também a experimentar o meu sentido crítico, que ganhou uma perspectiva diferente.

Mas o meu esforço tenta ir um pouco para além dessas escapadelas pelo passado recente e invocações do património cultural português.
Numa rede que já é global, onde se perde a identidade individual e colectiva em modas disseminadas e já interiorizadas, onde a escrita se adapta e a informação se perde nos excessos e redundâncias de um consumo massivo, procurei apenas um escape, mas vejo que alcanço um pouco mais. Que atinjo um patamar em que partilho convosco o meu ser.

Vou, por isso, lançar um desafio.
Na prática serão vários desafios.
Pequenas mas importantes questões, que vos vou colocar à laia de teste diagnóstico, para aferir a condição da vossa cultura.

Assim, presunçoso e altivo, vou educar-vos!

A ideia é simples – ensinar, aprender e ver aqui presas notas de outras cores escritas por outras mãos.
As regras serão igualmente simples.
Colocar-vos-ei perguntas, sobre tudo um pouco.
Aguardarei as vossas respostas, através de anotações as minhas notas.

O grande objectivo é que acabem por revelar o que sentem sobre o que para aqui escrevo, que aprendam e ensinem, e que se divirtam como eu me divirto.

E não tenham medo, se não sabem inventem, partilhem as vossas teorias estrambólicas.
Não agredirei pessoa alguma e exercerei o meu todo-poderoso poder de censura para garantir que ninguém se magoa.
Se ainda assim continuarem reticentes, por serem mais tímidos ou simplesmente medricas, lembrem-se que não precisam de se identificar.

Considerem esse gesto um pequeno tributo à cultura e alma Lusas.
Se, teimosamente, vêm beber a esta fonte palavras que vos fazem sorrir, têm o direito e o dever de contribuir para o meu sorriso e o sorriso dos outros.

01 dezembro 2006

1640...

Bolas! Logo hoje!
Primeiro de Dezembro!
E a senhora da caixa do supermercado a perguntar-me se era espanhol!

Isto não seria insultuoso se ela não estivesse observar o meu BI, nas suas mãos, a fim de confirmar a minha identidade e verificar que o cartão de plástico, que lhe apresentei como forma de pagamento, era mesmo meu.
Sorri, disse-lhe que não, que era Portugais, enquanto pensava para mim mesmo: @#£$§%&?!

(Para que estas notas não sejam censuradas, ou interditas as menores de 18, acho melhor abster-me de reproduzir o chorrilho de palavras e ideias que... enfim... dispersei do meu espírito, afinal educaram-me bem.)

Este episódio não foi uma estreia. Várias foram as vezes, aqui neste país culto e civilizado, em que olharam para a minha fotografia e impressão digital e me fizeram esse género de perguntas parvas.
Fico na dúvida se estão a gozar comigo ou se simplesmente não sabem ler.
É que, não sei se já repararam, todas as indicações no nosso Bilhete de Identidade de Cidadão Nacional estão traduzidas para Francês e Inglês. Bem sei que estão em letrinha pequenina mas...

Isto a terminar um dia cansativo, diria mesmo: arrasador.
Não por haver mais trabalho, ou por este ser mais exigir mais de mim, mas tão-somente por não poder saborear o feriado.

A verdade é que eu gosto de desfrutar todos os feriados.
No entanto, tenho uma sensação, arreigada no meu sangue, que este tem uma significação especial.
Afinal é o dia em que agradecemos e festejamos a existência dos espanhóis, se eles não existissem, para que lhes déssemos na corneta, este dia não seria feriado.

Pela mesma razão, talvez até por outras, proponho que os dias 24 de Junho e 14 de Agosto figurem também nos calendários como feriados nacionais.
Sim 24 de Junho é dia de S. João, mas foi nesse mesmo dia, no ano da Graça de 1128, no berço da Nação, que o Afonso arriou na mãe.
E a 14 de Agosto de 1385, ali nos campos de S. Jorge, ocorreu uma peleja onde uma padeira fez furor.

Fiquei curioso...
Quantos feriados têm os espanhóis à nossa conta?

28 novembro 2006

Língua viva...

Se toda a gente que é gente fala da TLEBS, porque é que eu não posso mandar também umas bocas?
Posta esta questão existencial, fui tentar perceber o que raio é que é a TLEBS.

Foi esta tarefa extenuante, um empreendimento na busca de novo saber, que me manteve afastado deste bloco de notas deste a última anotação.
Ou foi isso ou aquela última nota presa, com aquelas fotografias catitas, merecia mais um tempo de destaque.
Escolham a desculpa que menos vos afecta a forma como apreciam estas doidices que para aqui escrevo.

Após afadigada pesquisa, uma azáfama, cheguei à conclusão que TLEBS, ao contrário do que muitos pensavam, é a sigla da nova abordagem do Ministério da Educação de Portugal ao ensino da nossa Língua Materna... que é do lado da mãe portanto (deve ser uma tia avó que eu desconheço, os ascendentes daquele lado da família são numerosos).

Estava eu a dizer, antes de me distrair com a minha costela alentejana e me perder a contar as tias avós a quem fui obrigado a dar beijinhos nos últimos trinta e cinco anos, que a TLEBS é a nova técnica para o ensino do Português nas escolas.

TLEBS – Terrorismo Linguístico para os Ensinos Básico e Secundário – é a nova estratégia de combate ao analfabetismo dos pirralhos e pirralhas de Portugal.

Para não ferir susceptibilidades, numa altura em que o mundo receia dizer, escrever, ouvir e ler determinadas palavras, o Ministério da Educação, muito acertadamente, alterou a designação oficial da TLEBS para algo mais suave: Terminologia Linguística para os Ensinos Básico Secundário.

Eu nem sabia o suficiente para ter positiva na prova global, no final do secundário, mas mesmo que o meu nível de conhecimento, sobre a língua em que escrevo, fosse o bastante para que percebesse exactamente o que representam alguns dos conceitos que se aprendiam antigamente, não conseguiria nunca atingir o nível exigido para captar alguma coisa do que fala a TLEBS.
Notem que ao antigamente não me estou a referir à antiga Quarta Classe, que eu escrevo com maiúsculas por deferência, mas ao meu tempo de liceu, em que havia uns sujeitos, alguns predicados (uns mais próprios que outros) e muitas hipérboles, parábolas e outros conceitos matemáticos. Esta foi também a altura de alguns neologismos que sobrevivem ainda hoje e dos quais a minha geração, estupidamente, se orgulha.

Mas percebo a estratégia. A ideia luminosa, realmente brilhante, daquele grupo de estudiosos da língua é verdadeiramente astuta.
Eu sei que à primeira vista é difícil ter essa percepção mas, descontada a aversão natural ao desconhecido e à mudança, à medida que vamos compreendendo menos das novas terminologias, nomenclaturas e definições, inscritas no documento que o Ministério pretende impor, a coisa começa a fazer sentido. A sério!
À medida que as explicações, elucidações, explanações e esclarecimentos propostos pelo grupo de trabalho dedicado a ajudar os ignorantes professores, alunos e curiosos que, coitados, não percebem patavina do que eles querem dizer com aquilo, a coisa vai ficando mais clara. Mesmo!

A minha teoria é simples, eles querem acabar com o mal pela raiz.
Ou seja, se um dos problemas identificados é a ignorância, por parte de alguns alunos e professores, das boas regras gramaticais, sintácticas e semânticas, da bela Língua que é o Português, com a introdução desta estratégia de guerrilha, ou terrorismo, o ministério assegura que todos os outros que ainda sabem o que é um substantivo, ou mesmo um advérbio, vão deixar de saber. Nivela-se o sistema.

A outra hipótese, não desprezável, é interpretar estas ideias chanfradas como um processo psicológico.
No fundo eles estão a tentar motivar alunos e professores.
Subtil e sub-repticiamente, ao inventarem estes nomes novos e estas novas ferramentas de dissecação linguística, eles introduzem nas cabecinhas frescas dos alunos a ideia de que: “Porra pá! É muito mais melhor bom aprender a gramática velha! Se os gajos acham que a gente não precebe nada do assunto ainda vão prá frente com a reforma e metem pra lá aquelas patacoadas e então é que ninguém precebe peva!”

Eu, sinceramente, estou mais inclinado para a hipótese de querer nivelar a coisa. Afinal acaba tudo por ser uma questão estatística, se houver boas notas a Inglês e a Francês até afirmamos que nos estamos a integrar na Europa e a mergulhar de cabeça na Globalização.

A árdua pesquisa efectuada demonstrou-me, sem margem para dúvidas, que a TLEBS não se debruça só sobre o estudo da língua. É muito mais abrangente que isso! Fala também sobre a Fauna, a Flora e a Fé(1), classificando, por exemplo, as aranhas como animais inferiores e deixando a nossa fé determinar se as plantas e alguns bichos são animadas ou inanimadas(2).
Infere ainda sobre a biologia e a variação de sexo dos animais... aos humanos não o admite(3).
Pode-se aprender muito lendo apenas o compêndio de perguntas frequentes!(4).

Percebi que a TLEBS serve ainda outro propósito nobre e elevado: ser assunto de chacota em colunas de jornais e revistas, servir de tema a tipos como eu, desinspirados.

Outra característica importante da TLEBS é a demonstração de que é possível escrever e falar em Português sem que os portugueses percebam.

Entretanto, o Terrorismo Linguístico parece que veio para ficar. As editoras de livros escolares, tal como as empresas que fabricam equipamentos de segurança, aumentaram já as linhas de produção para responder ao enorme volume de negócio que estas medidas drásticas anunciam. O clima do medo instala-se.

Resumindo, parece-me a mim que é tudo uma evolução natural. Afinal os romanos também consideravam o Latim uma língua viva.



Notas numeradas:

(1) - Três efes lembram-me qualquer coisa... o primeiro a adivinhar, em quais os efes que me passaram pela cabeça, ganha um doce.

(2) e (3) - Além dos endereços, transcrevo os excertos, em que me baseei para retirar as minhas brilhantes conclusões, antes que eles se apercebam das piadas que escreveram e bloqueiem o acesso.
São apresentados por ordem:

http://www.dgidc.min-edu.pt/TLEBS/CDPerguntasFrequentes/B3-005.htm
“A classificação atribuída às plantas, como aos animais inferiores (ex. aranhas), depende muito do conjunto de crenças individuais e das características culturais de uma sociedade.”

http://www.dgidc.min-edu.pt/TLEBS/CDPerguntasFrequentes/B3-008.htm

“Os nomes epicenos e os sobrecomuns não têm as mesmas propriedades. Embora os dois tipos refiram nomes de entidades animadas, passíveis de distinção de sexo, os epicenos referem animais e admitem variação de género realizada por composição (cf. cobra-macho, cobra-fêmea) e os sobrecomuns referem entidades humanas e não admitem qualquer tipo de variação de género.”

(4) - O endereço para as perguntas frequentes:
http://www.dgidc.min-edu.pt/TLEBS/CDPerguntasFrequentes/001.htm

Onde se encontram algumas verdadeiras pérolas, por oposição às pérolas artificiais ou criadas em viveiros.
Refiro que nem tudo é mau... eles também propõem simplificações a coisas complicadas, veja-se o exemplo em:
http://www.dgidc.min-edu.pt/TLEBS/CDPerguntasFrequentes/B4-002.htm


Para quem tiver mesmo paciência, e para parecer que fiz uma vasta pesquisa:

http://www.dgidc.min-edu.pt/TLEBS/terminologia.asp


http://www.dgidc.min-edu.pt/TLEBS/GramaTICa/gramatica.htm

http://www.dgidc.min-edu.pt/TLEBS/CDMateriaisDidacticos/tlebs_mat_exp.htm

17 novembro 2006

Rituais...

Hayat Uma dançarina semi-profissional procurava para o seu grupo um guarda-costas, para conseguir manter na linha alguns homens e provavelmente também algumas mulheres, durante e depois das suas actuações.
Este é um grupo composto, acho eu, exclusivamente por elementos femininos, que se dedica a divulgar as danças orientais e outros estilos exóticos semelhantes.

Esta necessidade de protecção externa é, quanto a mim, paradoxal.
Não é a dança uma forma explícita de provocação? Uma evolução natural e um aperfeiçoamento de rituais de acasalamento que estão encrostados no nosso subconsciente animal?

Ora, as meninas com umbigos à mostra, que abanam sensualmente os rabinhos e outras partes protuberantes dos seus corpos, ao som de músicas hipnóticas, não podem esperar que todos os machos que assistem ao espectáculo se comportem devidamente.
Claro que uns resistem melhor que outros aos instintos primários, mas qual seria o objectivo de quem inventou essas danças?

Agora chamam a este tipo de demonstrações da natureza – manifestações culturais. Neste domínio, como noutros, a humanidade tenta disfarçar as suas origens e contrariar os postulados de Darwin mas, como se vê pelas reacções das plateias a estes espectáculos, não se podem negar os factos nem repudiar a natureza.Hayat

À excepção da dança da chuva, criada com propósitos bem definidos que nada têm a haver com o acasalamento, e do folclore que, salvo raras e honrosas excepções, é composto por lindas mulheres de barba rija e bigode que não precisam de guarda-costas, todas as outras danças são provocatórias!

Embora os homens prefiram provocar as mulheres com outros tipos de actividades, é certo que não são só elas que provocam com a dança.
Eu não compreendo muito bem o fenómeno, mas uma grande maioria das mulheres trepa às paredes ao ver o Joaquim a bater com os saltos altos no chão e a fazer salamaleques com as mãos.

Por razões óbvias eu não escolheria o flamenco. Escolheria uma daquelas danças sul americanas em que se pode dar um uso mais sensato às mãos – o tango.

Não sei qual a opinião dos estudiosos, historiadores e outros que tais, sobre as origens dessas danças. Tenho a sensação de que os primeiros homens a dançá-las, fizeram-no com o instinto protector mais primário – proteger o direito à procriação.
É fácil imaginar uma bela mulher, comprometida, dançando com uma racha no vestido ao som da concertina, ser alvo da cobiça de outros homens que não o seu.
É também possível imaginar o homem a tentar proteger a sua conquista, chegando-se à frente e acompanhando a dança, mostrando de forma clara à concorrência que é o eleito.

A dançarina, que referi ao início, afirma que o tango é sexual e por isso muito violento.
Esta consideração dá azo a várias interpretações e pode ser, só por si, tema para muitas longas conversas.
Para concordar parcialmente com esta teoria, posso admitir, que o tango é de uma grande violência física.
Mas considero mais grave a violência psicológica, crua e sem pudor, que as senhoras das danças orientais praticam sobre a assistência.

Qualquer homem compreende que um par que dança um tango forma um todo completo e fechado. Mas assistir a um conjunto de corpos femininos ondulantes, sem lhes poder tocar, pode ser demasiado duro.
Hayat

Um homem, ou uma mulher, não gosta de tango normalmente por ciúmes.
Um homem, mesmo que dê outras desculpas plausíveis, não gosta de danças orientais porque não pode fazer mais do que ver e imaginar.


 
Anotem que eu prometi publicidade:
http://www.dilshadance.pt/

E as meninas estão disponíveis para apresentar o seu trabalho em animações e espectáculos.
O grupo está descrito aqui:
http://www.dilshadance.pt/judite.php?a=5